Reflexões sobre Oscar Wilde


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Wilde é sem dúvida dos autores mais citados. A minha curiosidade por ele começou precisamente por esse motivo... cada reflexão, frase ou pensamento eram profundos e revelavam uma forma diferente de ver a vida e a sociedade. Não li muito da sua obra, mas houve um título que me ficou - O Retrato de Dorian Gray - o único que romance que Wilde escreveu, que de resto, já tive oportunidade de o recomendar aqui.

Todo o enredo gira à volta de um triângulo amoroso onde existe uma atmosfera impregnada de homossexualidade e decadência, quer social, quer intelectual. Através de uma história inverosímil, Basil pinta um retrato de Dorian Gray, mas com uma paixão de tal forma ardente, que o resultado é algo que transcende a exactidão física, e de certa forma, captura a aura do espirito que nos move. Ao ver tal beleza, Dorian fica esterrecido e deslumbrado perante algo que julgava impossível capturar num retrato. Num misto de horror e felicidade apercebe-se que a sua própria juventude jamais poderá rivalizar com a do retrato... naquele momento, sua juventude ficará para todo o sempre aprisionada e gravada na pintura. Desesperado, Dorian daria absolutamente tudo para que os papeis se invertessem. Que a sua juventude fosse eterna, e o quadro, por seu lado, envelhecesse.

Assim começa a história, recheada de imagens alegóricas e diálogos absolutamente deslumbrantes. Numa sátira que retrata a hipocrisia e a aristocracia de uma época elegante, Wilde socorre-se de personagens vaidosos, faustosos e hipócritas, cujos valores morais se resumem ao culto das aparências e à ostentação social.

É um livro fascinante, onde Wilde brinca com as ideias e persegue-as; atira-as ao ar e transforma-as; deixa escapá-las e torna a capturá-las; pinta-as de fantasia e dá-lhes asas de paradoxo. Wilde, para além das ironias e sarcasmos, demonstra também ser um profundo conhecedor do comportamento humano, dos seus valores e princípios, questionando a vida e a nossa actuação nela.

A leitura não é fácil. Os diálogos, pensamentos e sentimentos das personagens são longos e profundos, mas, faz-nos pensar sobre a juventude, o valor da beleza na sociedade, a vaidade e o caráter das pessoas. permitam-me partilhar convosco alguns trechos deste romance:

Wilde é um altruísta:

"[...] Até hoje dificilmente o Homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade. ... tal solidariedade (na dor) é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida na sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na saúde e na liberdade. ... Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por uma amigo, mas é preciso uma natureza muito superior ... para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo. [...]"

Wilde admira a verticalidade do ser humano... o carácter, a ética e a nossa evolução como indivíduos:

"[...] Não existem boas influências. Todas as influencias são imorais, imorais de um ponto de vista científico. Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O individuo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o actor de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmo. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são duas coisas que nos governam. E todavia, acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão e cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos tudo o que de podre poluiu humanidade. [...]"

Num diálogo entre o intelectual Henry e Dorian Gray, onde o primeiro lhe fala de Juventude:

"[...] Não, não o preocupa agora. Um dia, quando for velho, feio e com rugas, quando o esforço intelectual lhe tiver crestado a testa com as suas linhas, e a paixão marcado os seus lábios de queimaduras hediondas, há-de preocupá-lo, há-de preocupa-lo terrivelmente. Agora, onde quer que vá, o senhor deslumbra o mundo. Mas será sempre assim?... [...]"

A sensibilidade com que vê as coisas simples:

"[...] A beleza é uma forma de génio... diria mesmo que é mais sublime que o génio por não precisar de qualquer explicação. É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol, ou a primavera, ou o reflexo nas escuras águas dessa concha de prata a que chamamos lua. É inquestionável. [...] "

Por vezes preocupamo-nos e damos tanto de nós... qual a linha que estabelece a fronteira da nossa persistência? Wilde vê isto desta forma:

"[...] Sempre! Que palavra terrível. Estremeço de cada vez que a ouço. As mulheres gostam tanto de a usar. Estragam o romance com a teima de que deve durar para sempre. A única diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura mais tempo. [...]"

Quando somos invadidos por nostalgia de tempos idos, será mesmo necessário voltar atrás para os reviver? Wilde diz:

"[...] - Ah, quem me dera que me dissesse como rejuvenescer. Henry reflectiu por momentos. - Recorda-se de algum pecado terrível que tenha cometido nos seus tempos de juventude? - Receio bem que tenham sido bastantes - exclamou. - Então volte a comete-los - disse ele, num tom sério - Para recuperar a juventude, basta repetirmos as nossas loucuras. [...] "

E sobre a instituição do casamento....

"[...] Os homens casam-se por cansaço e as mulheres por curiosidade. Ambos se desiludem. [...] "

Este último comentário de Wilde é de uma grande subtileza:

"[...] O riso não é mau início para uma amizade e é de longe a melhor maneira de a terminar [...] "

Como podemos terminar uma amizade? terminar implica ruptura, implica culpa, implica obrigação de. No entanto, de uma forma altruísta e racional, Wilde domina o seu interior emocional e, racionalmente, termina-a com um sorriso.

O retrato de Dorian Gray é assim um pouco... intenso e cheio de contradições. De leitura obrigatória. Espero que estas linhas vos tenham despertado a curiosidade para Wilde, que é de facto um autor obrigatório e, por vezes, paradoxal.


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