A gastronomia em Astérix #1


Procurando esquecer a infelicidade que foi a última aventura de Astérix podemos sempre voltar-nos para o passado, não (ou também) numa atitude saudosista mas encontrando mais um aspecto que nos escapou nas múltiplas leituras já feitas. Precisamente uma das características da série é ser muito densa em pormenores e referências e apresentar diversos níveis de leitura. Ultimamente notei que quase todos os álbuns fazem invariavelmente alusão ao mundo da gastronomia. Começo a pensar se Goscinny não teria alguma obsessão com a comida, como Salvador Dali...

Desde o início da série o facto de haver uma poção cuja receita é secreta ou a própria alimentação dos gauleses ser exclusivamente o javali é sintomático (se for peixe já se sabe que há zaragata)... Em A foice de ouro já aparecem subtis referências gastronómicas. Ficamos a saber, por exemplo, que um escalope (carne de primeira) é do melhor que há para um olho pisado...

051028_asterix_escalope.jpg

Esta tendência confirma-se em Astérix gladiador quando Caius Obtusus convida Astérix e Obélix para um pequeno aperitivo em sua casa (Obélix preferia uma grande refeição). A ementa é refinada e, se as ovas de esturjão são coisa mais ao menos comum (caviar para quem não sabe), já o processo de extracção das gengivas das baratas me parece algo obscuro. Estes romanos são doidos!

051028_asterix_gengivas.jpg

O argumento do álbum seguinte, A volta à Gália, centra-se precisamente em... comida, o que já de si diz tudo. Castanhas, Tolices, ânforas de Bruto, etc. Nenhuma referência em particular, portanto, mas Astérix e Cleópatra já contém algumas passagens antológicas, dignas da raínha das raínhas:

051028_asterix_crocodilos.jpg

051028_asterix_perolas.jpg

Segue-se O combate dos chefes. Aqui, para além de haver uma sequência magnífica de tentativas de preparação de poções que de mágico têm apenas o facto de provocarem mudanças de cor, há a cena em que Plutoqueprévus se recusa a sair do caldeirão perante a ira do centurião romano. Os trocadilhos são deliciosos (é a palavra certa):

051028_asterix_plutoqueprevus.jpg

O álbum Astérix entre os Bretões é dos melhores da série. Todo ele é polvilhado com alusões subtis às particularidades dos britânicos, em especial os seus estranhos hábitos alimentares (eles que dizem mal dos "comedores de alho" do continente...). Eis um exemplo:

051028_asterix_hortela.jpg

Ao que parece também os povos do norte apresentam estranhas particularidades gastronómicas. Segundo Goscinny a cozinha normanda seria toda ela baseada no molho branco... Ao longo de todo o álbum Astérix e os Normandos o terrível Cacetaf vai comendo iguarias com molho branco. Para além das que aqui são apresentadas ainda hão-de aparecer o javali com molho branco (que faz Obélix parar de lutar), salsichas com o dito cujo e por fim o maior requinte da cozinha normanda (sic): MOLHO BRANCO COM MOLHO BRANCO!

051028_asterix_molhobranco1.jpg

051028_asterix_molhobranco2.jpg

051028_asterix_molhobranco3.jpg

Mas não se julgue que é tudo iguarias. Em Astérix legionário os voluntários da 1ª legião, 3ª coorte, 2º manípulo, 1ª centúria, entre os quais se encontram os nossos heróis, esperam o rancho. Astérix prudentemente vaticina que "quanto mais poderosos são os exércitos, pior é a alimentação; é assim que mantém os guerreiros de mau humor". Depois de provar o prato acabar por declarar: "nunca imaginei que o exército romano fosse tão poderoso". Pudera... Em todo o caso essa não é a opinião do Bretão...

051028_asterix_racao.jpg

E por hoje é tudo. Confesso que me sinto um pouco enjoado...


version 1/s/bd / hq// //seven