Como fazer bons filmes #1



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Orson Welles (que nunca fez um filme medíocre) explica tudo...

Toda a gente deu sempre demasiada importância ao estilo dos meus filmes. Não creio que sejam dominados pelo estilo. Espero ter um estilo, ou vários, mas não ser essencialmente um formalista. Pretendo sobretudo dar uma impressão musical. Música e poesia, mais do que a imaginação simplesmente visual. O lado visual dos meus filmes é o que me é ditado pelas formas poéticas e musicais. Não parto de formas para tentar encontrar uma poesia ou um ritmo musical e colocá-los friamente no filme. O filme deve, pelo contrário, seguir esse ritmo sem esforço.

A meu ver, um autor que não pode suportar a ideia de se desfazer de qualquer coisa, sob o pretexto de que é belo, pode simplesmente estragar um filme. (...) Tenho retirado aos meus filmes imagens maravilhosas porque acho que vão comprometer o ritmo interno da obra. Um filme faz-se tanto com o que lhe tiramos como com o que lhe juntamos.

Durante a rodagem sacrifico o que em minha opinião não vai resultar, porque muito difícil, inútil ao conjunto do filme ou aborrecido. Aborreço-me facilmente e penso que, com o público, pode suceder o mesmo. (...) Em minha opinião, através do cinema deveríamos ser capazes de contar uma história mais depressa do que através de qualquer outro meio. (...) Para mim uma das forças do cinema é a rapidez e a concentração. Não gosto de perder tempo. Gosto do que é concentrado e rápido.

Sei que perco com isto e o público arrisca-se a deixar passar coisas importantes. O meu objectivo é que alguns vejam estes pormenores diferentes. Se tudo for claro, o filme arrisca-se a não ser grande coisa. (...) Penso que um filme deve estar cheio de coisas, de pormenores que não se vejam logo à primeira. Um filme não deve ser inteiramente evidente. Não gosto de filmes medíocres...

Há sempre coisas que deixo para trás, porque não acredito que um filme se tenha de fazer como esses quadros em que se pintam as folhas de uma árvore uma a uma. Trabalho de uma maneira muito mais brutal que a maioria dos realizadores. Avanço sempre, porque assim me parece que é um modo de contribuir para que o filme seja mais vivo. (...) Tento preservar um pouco o sentimento da improvisação, da conversação...

seven

Co-fundador e ex-colaborador do obvious, actualmente retirado, foi responsável durante bastante tempo pela definição da linha editorial. Concebeu e coordenou a transição do blog para o formato de magazine.
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