Como fazer bons filmes #2


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Orson Welles continua a explicar...

Nos meus filmes costumo atribuir ao cenário uma importância enorme, evidentemente. Mas um cenário não deve parecer perfeito, mas somente real. (...) Por isso, devíamos ser capazes, graças à fotografia, à iluminação e a tudo o que pode transformar o real, de o sobrecarregar de um traço de glamour ou de mistério, que ele não possui nesse sentido. O real deve ser tratado como um cenário.

Quando trabalho em estúdios costumam acusar-me de uma certa desordem organizada. Para isso há várias razões. Primeiro o que parece desordenado tem por vezes perfeita lógica. Para explicar tudo ao assistente e aos outros seriam necessários dez minutos de cada vez. Ora eu não trablho assim e aqui está porque pareço caprichoso. (...) Com os exteriores, por exemplo, a posição do sol determina tudo, de modo que passo bruscamente de uma sequência a outra, ou mesmo a uma sequência que não estava prevista para esse dia, bastando para isso que a luz me pareça conveniente. (...) Por outro lado, acontece que os actores não estão em forma no dia previsto. Sente-se que eles estariam melhor noutro dia ou noutro ambiente. Então é preciso mudar, faz bem a toda a gente.

Para mim, quase tudo o que é baptizado com o nome de encenação não passa de um vasto bluff. No cinema, há poucas pessoas que sejam verdadeiramente encenadores e, entre estes, muito poucos que alguma vez tenham tido a ocasião de encenar. A única encenação de real importância exerce-se durante a montagem. (...) O único momento em que é possível exercer um controle sobre o filme é na montagem. Pelo que me diz respeito, a fita de celulóide executa-se como uma partitura musical, e esta execução é determinada pela montagem.

As imagens por si sós não são suficientes: são muito importantes, mas não passam de imagens. O essencial é a duração de cada imagem, aquilo que se segue a cada imagem: toda a eloquência do cinema se fabrica na sala de montagem. É então que o encenador se torna um verdadeiro artista em potência, porque creio que um filme não é bom senão na medida em que o encenador conseguiu controlar os seus diferentes materiais e não se contentou, simplesmente, com levá-los a bom termo.


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