O amado de Deus


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Deus ama Mozart: podia ser uma inscrição feita num coração trespassado por uma seta de cupido gravado na casca de uma árvore. Mas não é. Terá Deus amado Mozart ou Theophilus, Gottlieb, Amadé, Amadeus, como também lhe chamavam? Morrem novos aqueles que os Deuses amam. Este aforismo grego terá sido pronunciado a propósito da morte de Alexandre Magno com a idade de 32 anos, após conquistar meio mundo. Muitos foram os que a morte levou na força da vida: Chopin, Lord Byron, George Gershwin, Jimi Hendrix, Mozart - quase todos eles músicos, macabra coincidência... Terão tido mais sorte do que o comum dos mortais destinado morrer de velho, como os Samurais cuja honra suprema era morrer no calor da luta, em plena perfeição?

Wolfgang Mozart morreu na perfeição. Tinha 35 anos quando os Deuses o chamaram para junto de si. Nasceu a 27 de Janeiro de 1756, há precisamente 250 anos que hoje se comemoram. Mozart não é seguramente o meu compositor favorito mas algumas das suas peças encontrar-se-iam certamente nos discos que eu levaria para a tal ilha deserta que ninguém sabe onde fica, na condição de lá haver energia eléctrica para ligar o meu leitor de cd's...

Muito do que se diz dele pertence ao domínio da fantasia a começar pelo próprio nome Amadeus, que parece nunca ter usado. Diz-se também que tinha uma facilidade notável em compor e que a música lhe saía naturalmente, ao contrário de Beethoven, para quem a composição era um parto de dor... No entanto, sabe-se que trabalhava muito e o aspecto límpido das suas obras resulta provavelmente de uma longa depuração. Mas é um facto que a sua música tem a simplicidade das coisas perfeitas e flui admiravelmente. Só Bach o ultrapassa neste aspecto.

Pessoalmente quero recordar Mozart através da sua música. Na sua vida, muito prosaica ao que parece, era muito distante da imagem que dele temos sobretudo a que nos foi transmitida pelo magnifíco filme de Milos Forman Amadeus. Descontando os aspectos mais ou menos romanescos a que a linguagem cinematográfica obriga há algumas cenas profundamente emotivas que são as que quero associar à imagem que tenho de Mozart. A primeira é logo no início, quando o jovem compositor entretido num jogo de amores com uma rapariga pára e muda de expressão ao escutar a sua música; mais tarde ouvi-lo dizer "eu sei que sou uma pessoa vulgar mas a minha música não o é"; por fim um dos momentos mais comoventes do filme: Salieri "ouvindo" a música escrita nas partituras que Stanzi lhe traz sem que o marido saiba...

Andante, Concerto para Piano e Orquestra, Dó M Nr 21 KV 467


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