
Dois arquitectos discutem qual o formato do papel em que hão-de entregar o projecto. Diz um deles: um rectângulo de ouro. Diz o outro: não, é melhor um quadrado de 40x40cm. Intervém um terceiro elemento, não arquitecto: e que tal um formato normalizado, por exemplo um A1?
Um cliente trocou o arquitecto que lhe estava a fazer o projecto da casa por um estudante finalista de arquitectura. Este, compreensivelmente, admirou-se e perguntou-lhe o que via nele que o outro, um profissional experimentado, não tinha. Resposta: como ainda não és arquitecto achei que farias um preço mais em conta...
Estes dois exemplos que apontei são verdadeiros. Tenho para mim que os arquitectos são por natureza pouco práticos e os seus esforços concentram-se quase exclusivamente em discussões teóricas que apenas interessam à sua profissão. Ao público em geral estes debates passam-lhe ao lado não só porque é ignorante na matéria mas porque está mais interessado nos aspectos práticos - e com razão. O preço da obra e do projecto são talvez os que ocupam o primeiro lugar na lista de preocupações do cliente, seja ele particular ou o Estado.
A questão dos honorários dos arquitectos é seguramente tabu entre eles pois nunca a vejo ser discutida (e conheço montes de arquitectos...). Tão pouco tenho visto o assunto ser aflorado na blogosfera ou noutras andanças virtuais. Confesso que não compreendo tal ausência de debate sendo esta uma das pedras de toque do relacionamento arquitecto/cliente e, portanto, chave do seu sucesso ou insucesso profissional. Lobbies e interesses instalados? Provavelmente, mas não explica tudo.
O processo de cálculo dos honorários dos arquitectos é anacrónico e desadequado. Tem por base uma tabela de valores de obras públicas datada do tempo da Maria Cachucha a que se aplica uma percentagem inversamente proporcional ao montante. Necessariamente os cálculos são feitos em Escudos e convertidos para Euros, o que é ridículo. Mas tirando isto não existe mais nenhuma referência para este cálculo, que eu conheça... Cada arquitecto é livre de calcular os seus com tudo o que isso implica.
Em Espanha, tanto quanto sei, é a Ordem dos Arquitectos que fixa os honorários de um modo uniforme e ajustado aos tempos que correm; é também a Ordem que os cobra. Isto tem, pelo menos, a virtude de evitar que o cliente escolha o arquitecto pelo seu preço e passe a procurá-lo por outros aspectos como a qualidade ou as características formais ou construtivas dos seus projectos, por exemplo. Além disso a cobrança é muito mais eficaz dado tratar-se de uma instituição com mecanismos financeiros e jurídicos à qual é mais dificil esquivar-se do que a um particular.
Sobre os "calotes" no pagamento dos honorários falarei noutra ocasião (e muito há para contar...)
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