
A propósito dos 250 anos do nascimento de Mozart, e como já foi aflorado pelo seven, é com alguma nostalgia que recordo um dos filmes da minha vida.
Amadeus é um filme maravilhosamente triste. Amadeus é sobre frustrações. A frustração de não ser tudo aquilo que se deseja. A frustração de saber que há alguém infinitamente melhor precisamente naquilo que mais admiramos e tentamos alcançar. É sobre a frustração de ver um legado esquecido à medida que a velhice se aproxima.
Milos Forman dá-nos uma obra que é na verdade um triângulo composto por Mozart, Salieri e o divino. Mozart, possui uma capacidade divina de criar a harmonia, que de tão bela e concordante, rivaliza com a própria voz de Deus. No entanto é leviano e não possui a devoção que tal dom merece.
A personagem de Salieri foi a minha preferida. Absolutamente paradoxal e fascinante. Músico menor, julga-se negligenciado por Deus a favor de Mozart, pois possui o dom do verdadeiro amor pela música, sem no entanto possuir a capacidade para realizá-la. Tem a capacidade de reconhecer o génio de Mozart, mas Deus negou-lhe tudo o resto.
Amadeus mostra-nos os extremos sentimentais que podemos experimentar. Fascínio e repulsa, amor e ódio, sentimentos que, no fundo, se complementam.
Para mim, há duas cenas lindíssimas e verdadeiramente arrebatadoras, que expressam a sensibilidade que rodeia o filme.
No momento em que lê as partituras que lhe foram levadas pela mulher de Mozart, Salieri chora, tal a harmonia e brilhantismo da composição.
Já no seu leito de morte, Mozart dita as notas, o compasso e a letra do Requiem para um incrédulo Salieri. Este percebe o quão incapaz é de acompanhar tal génio. Não consegue sequer compreender o que lhe é dito, mas ao invés de odiar, fica maravilhado com o talento de Mozart. Só então se dá conta da verdadeira extensão do dom que Deus concedeu a Mozart. É uma cena maravilhosamente orquestrada por Forman, associada a duas estupendas actuações. A cena resume, em si, todo o filme e a ambivalência das personagens.
Amadeus é uma obra de arte realmente à altura do homem que a inspirou.
2 comentários
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João Daltro
Também gostei do filme e concordo que Salieri é sua principal personagem. Mozart está por demais caricato. Mas hesitaria em dizer que Salieri foi um músico menor. Primeiro, quantas músicas de Salieri conhecemos? Eu só conheço três e apenas porque o sucesso do filme fez com que a Columbia as desencavasse do fundo do catálogo esquecido e as lançasse em disco. Depois deste, nunca mais encontrei outro à venda, fosse vinil ou CD. Assim, só posso tentar avaliar Salieri pelas notícias históricas. E elas me dizem que o italiano dominou o cenário musical vienense por pelo menos quatro décadas, ofuscando Mozart e Haydn. Também que foi Compositor da Corte e, mais tarde, diretor da Ópera imperial. Assim como foi professor de Beethoven, de Schubert e de Liszt. Quis o acaso da História que ele terminasse esquecido. Bach também ficou esquecido por muitos anos; para nossa sorte, foi redescoberto. Talvez um dia redescubram Salieri. Se o fizerem, provavelmente não receberá a classificação de gênio que distingue Mozart, Beethoven e o redescoberto Bach, ele não o foi. Mas é igualmente provável que nunca mais sejamos tentados a defini-lo como um músico menor.
Lidia Prado
Estudiosa do Mozart compositor e de suas incontáveis biografias, devo deixar consignado que abomino esse texto e o filme dele originário.
Colocam Mozart num papel ridículo, quase um débil mental, com aquelas risadas oligofrênicas.
Mozart era extremamente culto. Dominava o grego e o latim. Falava seis línguass.
Tinha uma alta percepção do seu tempo e foi o primeiro músico na Europa a fazer uma ópera a partir do texto de Beaumarchais, Bodas de Fígaro. Esse texto falava da necessidade da igualdade entre os homens e da instituição de direitos humanos, tendo sido um dos muitos fatores da Revolução Francesa.
Salieri era um renomado compositor, tendo sido professor de Beethoven e Lizt. Não tinha poraque invenjar Mozart.
Abraços
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