Agricultura


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Durante o Alto Estado Novo a situação económica do país não era famosa. Por trás da propaganda, os governos de Salazar nada faziam, sabiam ou podiam fazer para contrariar a pobreza e o atraso generalizado em que Portugal se encontrava. Já naquele tempo a agricultura era problemática, em particular no Alentejo. Os agricultores viviam na penúria e queixavam-se de que as terras eram pouco férteis.

O episódio que se segue foi-me contado pelo meu pai que, quando andava na tropa por estas alturas, conheceu um camarada de armas alentejano. O referido mancebo trazia consigo um papel com o que pretendia ser uma petição escrita em bom português versejado a solicitar apoio ao Governo da altura (já?), na pessoa do Ministro da Agricultura de então, um tal Sr. Sousa (ou Soisa), bastando para isso que enviasse adubos e fertilizantes para as terras. Graças à intervenção governamental a crise seria ultrapassada e o Alentejo tornar-se-ia no verdadeiro celeiro de Portugal (sic)!

O emissário acometido da responsabilidade de concretizar a missão era um tal D. Tancredo, um lavrador de grande notoriedade que, acompanhado de uma comissão constituída por vários congéneres, deveria fazer chegar ao Terreiro do Paço as justas reivindicações dos alentejanos trabalhadores da terra. O meu pai e todos os seus camaradas de caserna decoraram o texto. Mais tarde, ele deu-se ao trabalho de o escrever e eu aqui vo-lo deixo pelo preço que me foi vendido. Mesmo que não seja verdade vale pelo que vale e, sendo verdade, se alguma vez chegou ao Terreiro do Paço, ninguém sabe... mas é pena! :)

Porque julgamos digna de registo A nossa exposição, Sr. Ministro, Erguemo-nos até vós humildemente, Numa toada uníssona e plangente, Em que damos razão da nossa crise E em que evitamos o menor deslize.

Senhor: Em vão esta província inteira Semeia, lavra, atalha a sementeira Suando até à fralda da camisa... Falta-nos a matéria orgânica precisa Nesta terra que é delgada e sempre fraca. A matéria em questão chama-se caca!

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre Ministério Quiserem tomar o nosso caso a sério, Se é nobre o sentimento que os anima, Mandem cagar-nos toda a gente em cima Dos maninhos torrões de cada herdade. E mijar-nos também, por caridade.

Se o Sr. Dr. Oliveira Salzar Tiver vontade de cagar, Venha até nós solícito, calado, Busque um tereno que esteja lavrado E, na sua qualidade de Presidente do Conselho, Queira espremer-se até ficar vermelho.

E, se lhe escapar um traque, não se importe: Quem sabe se cheirá-lo nos dá sorte... (Quantos não porão as esperanças Num traque do Ministro das Finanças). E, quem viver aflito, sem recursos, Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa de falar: tenha a certeza Que a maior fonte de riqueza, Desde os grandes montes às courelas, Provém da merda que juntarmos nelas.

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de cal, potassa, azote: Mandem-nos merda pura de Bispote. E todos os penicos portugueses Durante, pelo menos, uns seis meses, Sobre o montado, sobre a terra campa, Continuamente nos despejem trampa!

Ah! Terras alentejanas, terras nuas, Desepero de arados e charruas. Quem as compra, as arrenda ou quem as herda, Sente a paixão nostálgica da merda!...

Ah! Merda grossa e fina, merda boa Das inúteis retretes de Lisboa. Como é triste pensar que todos vós Andais cagando sem pensar em nós...

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa E nunca precisámos de outra coisa.

Se quereis fomentar a agricultura Mandem-nos vir muita gente com soltura! Nós produziremos o trigo em larga escala Pois até nos faz conta a merda rala...

Podem vir todas as merdas à vontade, Não fazemos questão de qualidade: Formas normais ou formas esquisitas. E, desde de o cagalhão às caganitas, Desde a pequena poia à grande bosta, De tudo o que vier a gente gosta!

Precisamos de MERDA, Sr. Soisa E nunca precisámos de outra coisa.

(D. Tancredo, lavrador)


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