Slow attitude


060701_matisse_bonheur-vivre.jpg Henri Matisse, Le bonheur de vivre, 1905

Já vai para 16 anos que estou aqui na Volvo, uma empresa sueca. Trabalhar com eles é uma convivência no mínimo interessante. Qualquer projecto aqui demora 2 anos para se concretizar, mesmo que a ideia seja brilhante e simples. É regra. Nos processos globais, nós (brasileiros, americanos, australianos, asiáticos) ficamos aflitos por resultados imediatos, uma ansiedade generalizada. Porém, o nosso senso de urgência não surte qualquer efeito neste prazo. Os suecos discutem, discutem, fazem n reuniões, ponderações e trabalham num esquema bem mais slow down. No final, acaba sempre dando certo no tempo deles com a maturidade da tecnologia e da necessidade - bem pouco se perde aqui. Note-se que:

1. O país é do tamanho de São Paulo; 2. Tem 2 milhões de habitantes; 3. A sua maior cidade, Estocolmo, tem 500.000 habitantes (Curitiba tem 2 milhões); 4. Empresas de capital sueco: Volvo, Scania, Ericsson, Electrolux, ABB, Nokia, Nobel Biocare... Nada mal, não? 5. A Volvo fabrica os motores propulsores dos foguetões da NASA...

Os suecos podem estar errados, mas são eles que pagam muitos dos nossos salários. Entretanto, vale a pana salientar que não conheço um povo, como povo mesmo, que tenha mais cultura coletciva do que eles. Um pequeno episódio muito esclarecedor:

A primeira vez que fui para lá, em 90, um dos colegas suecos dava-me boleia para o trabalho todas as manhãs. Era Setembro e fazia frio. Chegávamos cedo à fábrica e ele estacionava o carro bem longe da porta de entrada (são 2.000 funcionários de carro!). No primeiro dia não disse nada, no segundo, no terceiro... Depois, com um pouco mais de intimidade, numa manhã perguntei:

Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento está vazio e você deixa o carro lá longe.

Ele me respondeu simplesmente assim:

Como chegamos cedo temos tempo de caminhar; quem chegar mais tarde vai ter menos tempo e é melhor que fique mais perto da porta. Você não acha?

Mas isto foi apenas um pormenor. Voltemos ao tema central. Começa a aparecer por toda a Europa um movimento chamado Slow Europe, como salientou a revista Business Week numa edição recente. A base de tudo está no questionamento da "pressa" e da "loucura" gerada pela globalização, pelo apelo à "quantidade do ter" em contraposição à qualidade de vida ou à "qualidade do ser". Segundo a Business Week, os trabalhadores franceses, embora trabalhem menos horas (35 horas por semana) são mais produtivos que seus colegas americanos ou ingleses. E os alemães, que em muitas empresas instituíram uma semana de 28,8 horas de trabalho, viram sua produtividade crescer nada menos que 20%. Essa chamada slow attitude está a chamar a atenção até dos americanos, apologistas do "Fast" e do "Do it now". Portanto, essa "atitude sem-pressa" não significa fazer menos, nem ter menor produtividade. Significa sim fazer as coisas e trabalhar com mais "qualidade" e produtividade" com maior perfeição, atenção aos detalhes e com menos stress.

Será que os velhos ditados devagar se vai ao longe ou ainda a pressa é inimiga da perfeição não merecem novamente nossa atenção nestes tempos de desenfreada loucura? Será que nossas empresas não deveriam também pensar em programas sérios de qualidade sem-pressa até para aumentar a produtividade e qualidade dos nossos produtos e serviços sem a necessária perda da "qualidade do ser"?

Algumas pessoas vivem correndo atrás do tempo mas parece que só o alcançam quando morrem de enfarte, ou algo assim... Para outros o tempo demora a passar: ficam ansiosos com o futuro e esquecem-se de viver o presente, que é o único tempo que existe. Tempo todo mundo tem por igual. Ninguém tem mais nem menos que 24 horas por dia. A diferença é o que cada um faz do seu tempo. Precisamos saber aproveitar cada momento porque, como disse John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro...

Texto adaptado de outro texto, escrito por um brasileiro que vive na Suécia, enviado pelo nosso amigo João Ribeiro.


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