
Está a brincar, Sr. Feynman! é um livro fascinante. Foi escrito por Ralph Leigton - um rapaz que tocava bateria com Richard Feynman nas horas vagas - com base em conversas gravadas ao longo de vários anos de convivência. Para quem não sabe, Richard Feynman foi um dos mais brilhantes e irreverentes cientistas do século XX, notável comunicador e professor, brincalhão, membro do projecto Manhattan e da comissão de inquérito ao acidente do Challenger, arrombador de cofres e deficiente mental segundo os psiquiatras das Forças Armadas americanas. À parte tudo isto também recebeu o prémio Nobel da Física em 1965 pelos seus trabalhos sobre electrodinâmica quântica...
O livro é uma colecção de aventuras e brincadeiras protagonizadas por Feynman, algumas com um fundo muito sério, mas todas desopilantes. Há pouco tempo, já não sei a que propósito, lembrei-me do episódio em que descreve a sua inspecção militar e consequente desmobilização das Forças Armadas por alegada deficiência mental. Não relatarei todo o capítulo, porque é muito extenso, obviamente; fico-me por uma súmula. Um livro a ler ou a reler.
Feynman começa por dizer que odeia psiquiatras! Acontece que, durante a inspecção, após diversos testes médicos, chega a vez de ser observado por um psiquiatra. Responde-lhe secamente a umas questões de rotina até que o psiquiatra lhe pergunta em tom sério: - Pensa que as pessoas falam de si?. Feynman riposta com um - Claro! enquanto o outro, sem levantar os olhos do papel, rabisca umas palavras e volta a perguntar: - Pensa que as pessoas olham para si? Como estava pelo menos uma dúzia de homens atrás de si a aguardar vez Feynman responde de novo afirmativamente e até aponta com o dedo quais deles. O psiquiatra continua a rabiscar...
As perguntas tornam-se mais estranhas: - Alguma vez ouve vozes na sua cabeça? - Raramente, diz Feynmam. - Fala consigo mesmo? - De vez em quando, responde. - Vejo que a sua esposa faleceu. Fala com ela? - Por vezes, quando subo a uma montanha e penso nela. - Tem alguém da sua família numa instituição para doentes mentais? - Tenho uma tia num manicómio. A conversa azedou a partir dali embora o psiquiatra não parasse de tomar apontamentos.
Passagem para outro psiquiatra, este mais velho e distinto, obviamente mais categorizado. Após as perguntas rotineiras seguem-se as verdadeiramente importantes, começando com - Disse que ouve vozes dentro da cabeça. Descreva isso por favor. A "conversa" sobe de tom e falou-se do sobrenatural, de telepatia e coisas do género. Perto do fim o psiquiatra pergunta-lhe: - Que valor dá à sua vida? - Sessenta e quatro, responde Feynman. - Porque é que disse sessenta e quatro e não setenta e três, por exemplo? - Se eu tivesse dito setenta e três teria feito a mesma pergunta! A entrevista terminou e Feynman, com o seu dossier na mão, pode ver o que os dois psiquiatras tinham escrito. O primeiro escrevera:
Pensa que as pessoas falam dele.
Pensa que as pessoas olham para ele.
Alucinações auditivas hipnogógicas.
Fala consigo mesmo.
Fala com a esposa falecida.
Tia materna em instituição para doentes mentais.
Olhar muito peculiar.
Confirmava-se que o segundo psiquiatra era mais importante, pois a sua letra era muito mais difícil de ler... Os seus apontamentos diziam coisas como alucinações auditivas hipnogógicas confirmadas e outras coisas muito técnicas e com mau aspecto... Resultado: INAPTO.
Embora de regresso ao trabalho e satisfeito, após algum tempo Feynman começou a pensar e a preocupar-se. Era evidente que sabiam quem ele era e que até estava a trabalhar no projecto da bomba atómica. Não podia ser doido! - estava apenas a tentar passar por doido. Mais tarde ou mais cedo ia ser apanhado e ia ser pior para ele. Era preciso resolver a questão definitivamente, pelo que escreveu a seguinte carta à Comissão de Mobilização:
Caros senhores:
Não sou de opinião de que deva ser desmobilizado porque estou a ensinar estudantes de Ciência, e é em parte na força dos nossos futuros cientistas que reside o bem-estar da nação. No entanto, podem decidir que eu não devo ser mobilizado devido ao resultado do meu relatório médico, nomeadamente por ser psicologicamente incapaz. Penso que não deve ser atribuída nenhuma importância a este relatório porque considero que ele é um erro grosseiro.
Chamo a vossa atenção para este erro porque sou suficientemente louco para não desejar aproveitar-me dele.
Sinceramente,
R. P. Feynman
Resultado final: Desmobilizado. Motivos médicos.

Comentários
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sérgio figueiredo
Existe também uma continuação ("Outra vez a brincar Sr. Feynman" julgo eu) que se prende essencialmente com a comissão de investigação do Challenger. Sendo muito extenso, é rico em detalhes hilariantes, e é nesta simplicidade que consegue asociar um raciocínio de génio a uma conduta divertida. Só os génios o conseguem fazer (veja-se Hawking a falar do seu "sotaque" americano, por exemplo).
seven
Chama-se "nem sempre a brincar, sr. feynman" mas tem menos piada que o outro. revela alguns pormenores mais sérios e mais íntimos do cientista