A luta continua...


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Voltamos ao tema do Ensino, que ultimamente tem andado nas bocas do mundo pelas más razões, se calhar, porque envolve exclusivamente os professores. É pena que não ande sempre em todas as bocas pelas boas razões: porque nos envolve a todos. Não desdenhando o tom humorístico do recente post - e o humor é uma coisa muito séria - desta vez falaremos a sério e ainda apenas sobre os professores. Tema quente, escaldante...

Os professores estão em luta, dizem, ou melhor, dizem os Sindicatos por eles. Estão todos em luta? Todos. (parece o início de uma história do Astérix...) E estão em luta porquê? Por causa do Estatuto da Carreira Docente (ECD) que o Ministério da tutela resolveu alterar, reorganizando o sistema de acesso à profissão, o posicionamento na carreira e o processo de avaliação e progressão nessa mesma carreira? Ouço dizer que há anos que os professores lutam por um novo ECD reclamando, entre outras coisas, estabilidade do corpo docente das escolas. Pois agora um professor que seja colocado numa escola aí terá de permanecer por 3 anos antes de novo concurso. Parece que foram atendidos, afinal. Pela dignidade da profissão? O que é isso trocado em miúdos?

Nem eu nem a maioria das pessoas se calhar sabemos exactamente porque se batem e se indignam. Faz-me lembrar uma situação caricata ocorrida há um bom par de anos com a CP e com a TAP que estavam sempre em greve, ora convocada pelo sindicato A, ora pelo sindicato B. Ninguém sabia o porquê de tantas greves e a ira dos utentes acabava por se virar contra os grevistas pelo transtorno que lhes causava, independentemente destes terem ou não razões de greve. Porque lutam os professores afinal?

Houve alguém que num comentário ao post anterior usou uma palavra proibida: corporativismo. Quando ouço falar na pesada herança do Estado Novo tal palavra surge-me logo à frente ao lado da Liberdade e Democracia (falta delas, entenda-se). As classes profissionais existentes no nosso país, sejam quais forem, representadas por Associações, Ordens e Sindicatos que defendem as suas damas em bloco são a coisa mais fechada, imóvel e avessa à mudança que conheço! Batem-se quase exclusivamente pelo aumento das regalias dos seus pares e deste modo cumprem a sua função corporativa, naturalmente.

Gostava de os ver baterem-se pela melhoria do Ensino em Portugal que é ou deve ser o fim último da sua missão de professores. E coisas concretas: os curricula; os horários; os modelos de ensino; a gestão das escolas; o orçamento (o bold é de propósito), uma cultura de valorização do mérito... Na altura em que escrevo já houve uma imensa manifestação e estão agendadas greves para os dias 17 e 18 deste mês. Corporativismo frouxo e inconsequente, digo eu. Se houvesse verdadeiro corporativismo os professores deviam virar as mesas e partir a loiça! - era o que defendia outro comentário. Talvez os professores tenham o que merecem, continuava o referido comentário.

Se a ilusão da paixão pela educação há muito nos abandonou é certo que os últimos tempos têm sido trágicos para o Ensino. E, se todos reconhecem a necessidade de pôr travão a este deslize imparável para o caos, irrita-me sobremaneira ver mais do mesmo: a mesma luta corporativa pela "dignificação da carreira" e as desajeitadas tentativas de reforma da tutela. As aulas de substituição resultam? As actividades extra-curriculares têm sucesso? Os professores passam mais tempo na escola mesmo sem ter nada que fazer ou sem condições para o fazer? Sinceramente não sei... As mudanças teriam de ser muito maiores mas se, apenas com esta proposta de alteração do ECD os Sindicatos se indignam, então seria a guerra civil!

Neste momento são os professores que estão na berlinda. Chegou a sua vez e já não era sem tempo. Não se julguem imunes nem se façam vítimas e aproveitem a oportunidade para lutarem por uma verdadeira reforma do Ensino em Portugal porque, se o conseguirem, a dignificação da profissão - seja lá o que isso for - virá por acréscimo. Mas atenção: se não querem fazer parte da solução, então são parte do problema. Corporativismos à parte, a luta continua...


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