Cinema mudo


 Cinema Tati Hulot Playtime Humor Som Barulho

Ultimamente tenho falado aqui sobre cinema sonoro na sua plenitude. Falei particularmente sobre Ennio Morricone, autor de algumas das mais belas paisagens sonoras da sétima arte. O cinema também é som e, se bem casado com a imagem, torna-se numa verdadeira máquina de sonhos. Também falei da sua colaboração com Sergio Leone, sacerdote emérito desse casamento. Mas Leone sabia igualmente dominar o cinema mudo, a arte do silêncio, e também a dos ruídos que não são música. Lembro duas passagens antológicas: a espera do comboio na estação no início de Once upon a time in the West; a outra com Noodles a mexer demoradamente o café em Once upon a time in America.

É portanto justo que se fale também do cinema mudo. Tudo vai dar ao mesmo, no fundo: na música o silêncio também se toca, ensinou-nos John Cage. E cinema é sempre cinema. Se aí encontramos muitos mestres como Chaplin e Keaton que utilizavam as imagens com uma força expressiva que dispensava o som - até porque estavam limitados a isso - outros, já durante o sonoro, procuraram essa riqueza expressiva a que acrescentaram apenas ruído. E, neste campo, curvo-me perante um dos seus maiores: Jacques Tati, o genial criador de Monsieur Hulot.

Neste excerto de Play Time, obra-prima de Tati, quase não se ouve um diálogo, como aliás em quase todo o filme. É um filme de sons, ruídos e silêncios. Apenas estes ilustram e dão sentido às imagens tornando-as ora surreais, ora ridículas. No mesmo filme há cenas bem ilustrativas do que afirmo, longas e inesquecíveis. Por exemplo: a interminável caminhada do funcionário no corredor do edifício onde Hulot vai trabalhar ritmada pelo ecoar dos seus passos; a cena da televisão no apartamento vista de fora, completamente muda. Uma visão de vacuidade total da caixa mágica e de simultânea celebração do cinema. Brilhante.


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