Era bastante novo ainda quando vi pela primeira vez Barry Lyndon de Stanley Kubrick. Não encontrei na altura palavras para descrever o que tinha acabado de presenciar e hoje, passado vários anos, tenho ainda dificuldade em fazê-lo. Conseguia dizer apenas isto: belo; excessivamente belo! Sei agora que isso se deve ao facto deste filme apresentar uma linguagem muito própria que não é configurável em palavras, um misto de imagens, sons e outros sinais audiovisuais complexos que só o cinema e o génio do autor tornaram possível.
Para realizar o seu único filme histórico Kubrick - que fazia apenas um filme de cada género - escolheu o período Barroco, época da grande música e também da grande pintura, e fez disso a matéria do seu filme. Toda a história é contada precisamente através destes meios, cena após cena, imagem após imagem, numa sucessão de stills de lentidão e intensidade exasperante... A linguagem cinematográfica de Kubrick no seu ápice.




De facto, aqui os diálogos são mínimos e a narração - a estritamente necessária à compreensão do enredo - é feita em off. Aliás o enredo nem é o mais importante pois parece que o filme funcionaria bem com qualquer história igualmente banal como esta o é. O mesmo se pode dizer das personagens principais: Redmond Barry ou Lady Lyndon quase se apagam na presença de um afectado Lord Ludd, do excessivo Chevalier de Balibari ou do genial Captain John Quin...
Todos eles são marionetas que se movem em cenários idílicos, pinceladas de pinturas bucólicas numa sucessão que mais parece um desfile de quadros numa galeria. Este filme comunica quase exclusivamente por essas imagens, uma linguagem insólita mas deslumbrante que a música reforça. É fácil aí revermos as paisagens de Watteau ou de Poussin, os interiores de Vermeer, a luz das velas de Latour, as composições teatrais de Lorrain, os retratos de van Dick, Rubens ou Rembrandt. Cinema pintado...
Haendel, Sarabande
6 comentários
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CV
Ando agora a abordar o conteúdo do período barroco nas minhas aulas de história e já me tinha tentado recordar de filmes que pudessem ilustrar a época. Fica esta sugestão cativante. O problema é encontrar em tempo útil...
nuno
segundo sei, até foram feitas lentes propositadamente para filmar certas cenas.
muito bom mesmo. vi há muitos anos e agora fiquei com vontade de rever.
Catequista Complicado
Excelente post. Obrigado pela deferência. Foi o último filme de Kubrick que eu vi, se descontarmos o Spartacus que, quando o vi, não sabia que era do Kubrick. E realmente, mais valera que não fora. As ibfluências da pintura são de facto inspiradoras. mesmo no Shinning e no Eyes Wide Shut. O barroco é o período mais marcante a este nível na obra de Kubrick. Além disso, a volatilidade psicológica de algumas personagens, os aromas e os cheiros, o tabaco, o pó-de-arroz, o vestuário, os jogos de luz e espelhos, os cristais, a música, é tudo tão minucioso e meticuloso!
Quanto ao ilustrar as aulas com filmes, eu escolho o Ligações Perigosas do Stephen Frears. Acho fabuloso. Mas há o Valmont, do Forman.
Papo-seco
foram criadas lentes para filmar à luz das velas (sem qualquer outra iluminação), uma enorme inovação para a época.
Este para mim foi e é um filme de sonho.
Vulgarmente, quando vejo um campo verde, fico à espera da chegada dos exércitos, em que os primeios a despontarem pelo monte são os tambores
Um sonho de filme Uma maravilha
sandra mello
Adorei . Me deu vontade de ver.
Marly Ribeiro
Adorei, vai me ajudar pra uma prova hj à noite, identificação da moda, estética do período Barroco...gratíssima.