Na estrada com o rally de Portugal #1



 Motores Rally Portugal Corridas Automoveis WRC Humor

O Rally de Portugal está na estrada. Aquele que foi em tempos considerado o melhor rally do mundo regressa ao Mundial desta vez em novo formato. O traçado da edição deste ano encontra-se confinado ao Algarve, deixando de fora todos os percursos e classificativas que fizeram a sua história e a sua fama. Talvez fosse mais apropriado chamar-lhe singelamente Rally do AllGarve (sic).

Ignoro quais as razões que presidiram a esta opção. Não sei se foram imposições da FIA se estratégias turísticas nacionais. Fossem quais fossem, necessárias ou não, é com pena que não verei carros e pilotos a desfilar nos troços de Fafe, Viseu, Arganil, Sintra ou Lousã... Alguns dos melhores momentos do melhor rally do mundo escreveram-se aí e muitos de nós testemunharam-nos. Eu fui um deles. Irei contá-los ao longo destes dias.

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Há uns tempos atrás quando, debaixo da batuta de César Torres, o Rally de Portugal entrou para o Campeonato Mundial, tornou-se automaticamente local de encontro dos grandes nomes da especialidade. Markku Alen, Hannu Mikola, Ari Vatanen, Juha Kankunen, Massimo Biasion, Carlos Sainz e tantos outros passaram a ser presença obrigatória no nosso asfalto e terra batida com os seus Ford RS 2000, os seus Fiat 131 Abarth, os seus Lancia Integrale e os seus Toyota Celica. Eu costumava acompanhá-los juntamente com um grupo de amigos absolutamente fanáticos.

Os preparativos começavam um bocado antes da prova com a ida dos nossos carros para a revisão, a compra de cartas militares, o estudo do percurso, dos locais de pernoita, da logística, etc. Na véspera faziam-se as malas com os sacos-cama, os mapas, as máquinas fotográficas e os víveres, compostos essencialmente por pão e produtos secos. Pormenor importante: não havia telemóveis.

Muda de roupa era dispensável bem como tudo o que significasse peso a mais no carro. Em contrapartida os rolos - fotográficos e de papel higiénico - abundavam. Pastilhas para o enjoo eram imprescindíveis porque a fúria de chegar a tempo aos locais de passagem dos bólides obrigava a uma condução rápida e desconfortável para os passageiros, sobretudo num Renault 5, como era o meu caso.

Há vários relatos de regurgitações de indivíduos incautos, como aquele que vomitou por cima do fecho da porta e o inutilizou devido à corrosão. Um nojo. Houve também outro que, não conseguindo ser suficientemente rápido, vomitou por cima do pé ao tentar sair do carro. O seguimento foi dramático: tivemos que interromper a nossa perseguição ao rally e procurar um café com quarto de banho para ele se lavar. Aí, ao tentar meter o pé no lavatório para o pôr debaixo da torneira, escorregou e estatelou-se. Ao lado, um homem a urinar teve um ataque de riso e não conseguiu evitar de molhar o chão todo e as suas próprias calças...

Quanto a mim tomava religiosamente os comprimidos para o enjoo pois sofria muito do estômago. Tinham um efeito terrível e punham-me a dormir o tempo inteiro. Não era mau: só acordava quando chegávamos ao local da classificativa e durante o tempo necessário para nos deslocarmos a pé. Depois voltava a adormecer e um amigo gritava-me "ACORDA!" imediatamente antes da passagem de um concorrente, após o que voltava a cair em estado cataléptico.

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Co-fundador e ex-colaborador do obvious, actualmente retirado, foi responsável durante bastante tempo pela definição da linha editorial. Concebeu e coordenou a transição do blog para o formato de magazine.
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