Na estrada com o rally de Portugal #2


 Motores Rally Portugal Corridas Automoveis WRC

Acompanhar o rally de Portugal no terreno não é para qualquer um. É necessário estar disposto a suportar toda a sorte de privações com abnegação: fome, frio e noites em claro. Eu e o meu grupo de fanáticos amigos sabíamos bem disso mas o nosso ardor não esmorecia. O plano de cada um dos dias estava rigorosamente traçado. Por exemplo: no 2º dia víamos os dez primeiros concorrentes na classificativa de Fafe - Lameirinha para ainda irmos a tempo de ver os últimos da classificativa de Lamego. De seguida rumávamos à Régua para assistirmos à neutralização e partíamos imediatamente para Baião.

Nessa noite ficávamos em Viseu para pernoitar na casa de um de nós. Pernoitar é uma forma de dizer pois na verdade apenas dormíamos até às 3 da manhã se ainda queríamos estar em Arganil e Lousã a tempo! Como não havia lugar para todos dentro de casa alguns de nós viam-se obrigados a dormir dentro do carro embrulhados em sacos-cama, já que não valia a pena pagar um quarto de hotel por 3 ou 4 horas de sono. Os que optavam por ficar no carro na madrugada seguinte estavam brancos de frio e sem ter pregado olho...

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A chegada a Arganil era premiada com o espectáculo deslumbrante de numerosas fogueiras rodeadas de adeptos enregelados do rally. Alguns abriam um buraco no meio de um cobertor e enfiavam lá a cabeça, cobrindo o resto do corpo. O carro ficava longe e andávamos muito tempo a pé até encontrar um bom local de observação. Os faróis dos primeiros concorrentes começavam então a rasgar a noite cerrada acompanhados pelas luzes do flash das máquinas fotográficas. Um pouco mais tarde o sol mostrava os seus primeiros raios por detrás dos montes. Arganil era inesquecível.

Por essa altura já não sentíamos os pés nem as mãos. Uma vez encontrámos no meio das estradas da serra uma tasca que servia galões e tantos bebemos que devemos ter acabado com as reservas de leite e de café do homem. Era a única bebida quente em vários dias! De resto a nossa alimentação era muito frugal e resumia-se a sandes, batatas fritas e às vezes uns panados; líquidos poucos. O sistema digestivo queixava-se ferozmente...

O país parava para ir ver o rally: os estudantes faltavam às aulas, os trabalhadores aos seus empregos, os soldados escapuliam-se dos quartéis. Uma vez, quando regressávamos de uma classificativa, fomos abordados por um soldado vestindo uniforme camuflado que nos perguntou: - Que tal está aquilo lá em baixo? - Muito bom!, respondeu um de nós. O militar voltou-se então para um camarada que estava mais afastado e gritou: - Ouviu, ó Silva? Venha daí...

Ser ou parecer militar era muito útil nestas ocasiões uma vez que a segurança era feita por soldados da GNR. Havia alguns de nós que usavam o cabelo cortado à escovinha (razões de higiene - ninguém tomava banho naqueles dias) e tirava-se partido disso. Certa vez um de nós foi até à beira do militar que vigiava a entrada no troço e meteu conversa. Pouco depois outro berrou cá de cima: - Então meu alferes? Surpresa do militar: - O senhor é alferes? - Sim, respondeu o outro (o cabelo à escovinha ajudava), mas estou à civil para ver o rally. Retorquiu o militar com embaraço: - Bem, eu posso deixá-lo entrar com os seus amigos se prometer que não diz nada a ninguém... Nessa tarde vimos o rally de camarote.


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