
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
E um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
Para ver quem é,
Enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
E correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
Enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
Órfãos de pais e mães,
Andarem acossados pelas ruas
Como matilhas de cães;
Enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
Com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
Num silêncio de espanto
Rasgado pelo grito da sereia estridente;
Enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
Cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
Amassando na mesma lama de extermínio
Os ossos dos homens e as traves das suas casas;
Enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,
Enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
O poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA
António Gedeão
4 comentários
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tita
lindo...
Isabella kantek
Muito bonito. Obrigada por dividir.
Caito
Muito lindo. Já estou saindo pra venda, comprar acafrão pra colaborar...
Abraço!
regina
Disculpa mais eu tenho que ser crítica, esta poesia é tão real´e me alegra dar os parabéns a um gênio que com sinceras palavras consegue retratar a realidade de um povo sofrido. Gostei muito,só tem uma coisa que pena, mas não poderei apreciar mais as suas poesias não tenho tantas condições para comprar todos os seus livros.
Receba com todo carinho meus sinceríssimos parabéns.