
Foto: Benjamin Junior
Antes de estar mais embrenhado no mundo tecnológico, há demasiados anos talvez, fui também um fotógrafo e um amante da fotografia. Fotografava com rolos de 35mm bobinados por mim, sendo cada bocadinho de filme aproveitado até ao último fotograma. O som do disparo da minha Canon AE-1 era mágico, espoletando para além do obturador um conjunto de emoções que ficavam eternamente ligados à imagem. As referências eram então nomes como Cartier-Bresson, Robert Capa, David Seymor, entre muitos outros.
Mais tarde quando se efectuavam as provas de contacto a forma demorada como olhávamos cada imagem criava uma memória visual e afectiva que jamais seria resgatada pelo tempo. Anos passados, bastava-nos olhar para uma prova em centenas para saber exactamente onde se encontrava a fotografia que se procurava e quais os sentimentos que experimentámos na altura.
Não vou discutir a forma mais ou menos afectiva de encarar a fotografia mas os pilares que sustentaram todo o meu trabalho enquanto fotógrafo estabeleceram fronteiras e limites que na actualidade são facilmente ultrapassáveis com a tecnologia. Todo o processo de ampliar uma fotografia e colocá-la em papel era quase artístico, pois possuía uma grande intervenção humana na constituição final da imagem. Era a projecção da imagem no papel, a protecção de algumas zonas (máscaras), a temperatura do químico do revelador, a sua concentração, enfim, um sem número de variáveis que não poderiam jamais ser mecanizadas ou automatizadas. Dependiam unicamente da arte, empenho e paixão do fotógrafo que as fazia.
O substituto que ocupa o lugar da câmara escura de outrora chama-se actualmente Adobe Photoshop. Desde o advento da fotografia digital que este programa é quase obrigatório para quem faz fotografia mas, no meu caso em particular, sempre foi utilizado com algumas restrições. Há limites criativos que não ultrapasso pois ao fazê-lo, sinto que estou a trair alguma da essência da fotografia com que aprendi a viver.


Falei aqui há dias de Manuel Librodo, um fotógrafo que me fascinou pelo sentimento de algumas imagens. Eram belas, sem dúvida, aliás, são belas mas... a que custo? Vejam estas duas imagens dele (aqui e aqui): são da mesma pessoa mas, como podem observar, muito mudou... uma menina rústica com sardas e uns olhos castanhos profundos que fazem lembrar um estilo nómada... o brilho no lábio chama-me à atenção, muito bem cuidado, excessivo. No instante a seguir um rosto bem mais sofisticado com as sardas atenuadas e uns olhos azuis a combinar.
Ambas as imagens são fantásticas, diga-se! Mas a que preço? Qual a fronteira que não devemos ultrapassar? Devemos ignorar os meios para atingir os fins? Afinal o que é real? Arte ou engano? Quanto a mim a resposta é muito difícil...
16 comentários
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Paula Dresch
Acho lindo a arte da fotografia não apenas tira la mas brincar com ela.. é magico. é historico aquele momento eternizado num simples click
Felipe Morais
Sem sombra de dúvidas, nada substitui o trabalho de um grande fotógrafo que consegue passar uma emoção em cada imagem e cada detalhe. A digitalização das fotografias, e por conseqüência seu "aperfeiçoamento", deram aos fotógrafos um exaustivo trabalho: o de transponir as belezas do mundo digital e enganável. Os pôres-do-sol que antes ficavam magníficos sem precisar retocar detalhe algum, hoje deixam a desejar nas mãos da atualidade.
LuciDo
Vc conhece o Juventude Sobriedade e Poesia , me adicionou no blogblogs...
Conheça agora o Parco Poeta
Pedro Doria
Benjamin: sou do jornal O Estado de S. Paulo e estamos procurando um contato seu para comprar uma fotografia. Vc me enviaria um email? Gratíssimo.
pedro.doria@grupoestado.com.br
Rebeca
admiro as duas artes, a da fotografia digital que passa por todo um processo de edição (requer a utilização de software) como também a fotografia crua, sem retoques, que passam por um longo e complicado processo citado acima. É claro, que no pesar da balança, a digital vale bem menos, afinal, qual é a que retrata a verdadeira emoção? ;)
Um abraço,
Rebeca
Rochel
muito bom o seu blog...tem uma visão bem diferente do nosso cotidiano e cultura...eu ainda toh tentando...vc jah leu aminha historia??desventuras em series...???eu ainda nao tive tempo de continua-la mas essa semana ainda eu continuarei....posso linkar o seu blog..??
MN
Um assunto recorrente. Tb eu comecei no filme, com um laboratório em casa. Usava (e ainda hoje uso) uma Olympus OM-1n. Sim, eram momentos mágicos, assistir ao "nascimento" da imagem. Depois, veio o digital. Tenho agora uma Canon 30D, que me tem permitido evoluir mais na fotografia do que eu sonharia. Porquê? Porque me permite investir mais tempo e menos dinheiro no acto de fotografar.
Manipular ou não? O que importa, digo eu, é o resultado final. Talvez o que seja incorrecto é a generalização do termo "fotografia". Se calhar, deveria chamar-se outra coisa, já que a fotografia passa a ser a base para um trabalho artístico mais extenso. Agora, o processo/percurso que leva a uma determinada obra (e abordo a questão pelo lado artístico - esqueçamos o fotojornalismo, por exemplo) não deve ser limitado. Eu quero criar uma obra, e escolho a fotografia como base. Quero transmitir algo. Se tal, para mim, apenas é possível mediante a manipulação, so be it.
Ah, já agora, raramente uso o Photoshop. Sou fã do LightZone (gratuito para Linux ;) )
jojo
Junior, long time no see!! Estás bonzinho?
Se queres continuar/voltar a fotografar à moda "antiga" mas os 35mm e o laboratório já não dão jeito, arranja o Lightroom que é magnífico!
aspirador de pó
sou fotógrafa há mais de dez anos e aprendi a fotografar ampliando minhas próprias fotos no p&B. Trabalhei em laboratório, em estúdio e em jornal. Durante esse tempo, muita coisa mudou e eu não tenho nenhum apego ao filme, nem faço apologias a era digital. Porque o meu negócio é fotografar. Seja atrás de uma nikon f5 ou de uma super digital (que eu nem consigo acompanhar qual é a mais fodidona)! O que conta mesmo pra mim é o que eu escolho pra enquadrar, é a luz que me emociona e os olhos que encaram a minha lente. O resto é suporte pra eu expressar o que vem de dentro!
Bjr
A minha questão sempre se prendeu com os limites que possuo para transmitir algo através de uma imagem. Mexer para além de alguns limites com Photoshop ou algo similar acaba por ser a mesma coisa que contratar uma criança toda mal vestida para ficar a chorar em frente à objectiva. Muitas vezes, o que se pretende transmitir numa imagem é algo de genuíno, que se incompatibiliza com certos limites ultrapassados.... vá... chamem-me de retrógrado...
MN
BJr: Comprei recentemente uma polaroid, para esses momentos realmente espontâneos. Mas continuo a achar que podemos querer transmitir algo que não é "capturável" por um instante. Pode ser um conceito ou ideia que, partindo de uma imagem real, necessita de alguma transformação. Da mesma forma, tb aceito que, perseguindo um objectivo puramente estético, se altere fotografias de paisagem, por exemplo, por forma a remover um fio telefónico ou um saco plástico. O que importa é o objectivo/produto final.
Claro que isto não se aplica a fotojornalismo ou a fotografia documental...
Bella
Fotografar é imortalizar um momento único, ao qual não se poderá mais voltar, senão através daquele registro. Nada mais que um simples clique,um momento,um único e eterno registro. Sou encantada fascinada com o mundo da imagem real. Como diz o ditado: "uma imagem vale mais do que mil palavras".
moskito
Totalmente montagem NO
PS
marcio ramos
Adorei tema, foto, texto e auto-analise e analise... e as perguntas.
luciano duarte
sou artista plastico ,escultor e sempre adorei fotografia concordo com tudo k tem sido dito ambos estao certos,fotografia pura e dura sem trukes ok, mas ha outro tipo de fotografia digo eu ,um artista pode fotografar sem uma tecnica muito apurada fazer fotos e usar fotohop para criar cenarios ,contar estorias fazer arte usando fotografias suas fazer montagens ,como na pintura se faz clagens,isto é uma forma de arte ,sem isto a fotografia é so uma fotografia ponto podes reunir toda a qualidade mas so isso uma boa foto a parte artistica é criar imoçao suprender criar inquietaçao ,establecer limites nao me parece a arte nao tem limites na escultura ainda estariamos a fazer bonecos de marmore e vejam a arte da joana vasconcelos todos conhecemos e ademiramos tambem é escultura e nao trabalha em pedra .
Walisten Samches
Arte é arte, e sempre será, o fato e que o photoshop apenas abre uma nova possibilidade que antes era limitada pela falta de posibilidades, a beleza do antigo existe tanto quanto a beleza do novo, mas, infelismente o merito do que é atual e superior... e a vida.
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