Touch of Evil - A cena mais longa de Orson Welles


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Na exposição mundial de Paris em 1900, milhões de visitantes saudaram a chegada do novo século percorrendo um infindável número de atracções e espectáculos que aí tiveram lugar. No entanto, a atracção que mais impressionou seria aquela que revolucionaria para todo o sempre a forma de comunicar e perpetuar a vida da imagem: o cinematógrafo dos irmãos Auguste e Louis Lumière. Desde então, a arte do cinema tornou-se complexa e ramificou-se em diversas disciplinas como argumento, realização, iluminação, operação de câmara, gravação de som e muitas outras que, individualmente, constituem também uma forma de arte.

Na agregação de todas estas disciplinas é inegável o papel do realizador que através do seu conhecimento, capacidade e genialidade dá vida e emoção a imagens desconexas. Para tal são utilizadas diversas técnicas mas, de toda essa panóplia a mais marcante será, talvez, a obtenção de uma longa cena efectuada com uma única filmagem sem interrupções. Diz-se que esta técnica é um exercício narcisista que, no limite, serve para o próprio realizador passar uma afirmação do seu talento.

Esta técnica extremamente complexa, envolve manobras de câmara muito extensas que necessitam de uma grande planificação e mestria de execução, exigindo ao realizador uma grande capacidade de articulação de todo um conjunto de eventos das outras disciplinas. Um dos pioneiros desta técnica foi Alfred Hitchcock que em 1948 atreveu-se a filmar "A Corda" numa linha contínua de tempo. Posteriormente, procedeu à colagem de cenas de uma forma imperceptível de forma a que perecessem uma única. O filme resultou, em parte, pelo facto de se desenrolar num ambiente controlado de uma sala, havendo um maior controle das condições de luminosidade e movimento.

No entanto, quando é necessário envolver movimentos complicados que, por exemplo, envolvam diferentes condições de iluminação e focagem, a dificuldade desta técnica vem ao de cima. Assim, a primeira cena universalmente aceite como das mais longas, efectuada sem qualquer corte e em condições extremamente complexas, foi a fantástica abertura do filme "Touch of Evil", realizado em 1958 com a excepcional mestria de Orson Welles.

A cena começa com a colocação de uma bomba na mala de um carro. A partir desse ponto, a câmara segue o carro através de diversos movimentos para acompanhar a acção que se vai desenrolando numa rua com cada vez mais figurantes e objectos. Um crescente de suspense começa a ter lugar na cabeça do espectador que se pergunta em que instante a bomba irá explodir, sendo esse momento acentuado com o contínuo da acção sem qualquer interrupção. É absolutamente impressionante a mestria e o talento de Welles. Julgue você mesmo.

Em nota final, numa primeira edição do filme a Universal colocou os créditos por cima da cena, retirando grande parte do impacto que Welles lhe deu. Porém, em edições posteriores a intenção de Welles foi respeitada, tendo sido tirados os créditos.


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