Walter Miller - Um cântico para leibowitz #2


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Na sequência do post de ontem (Leibowitz parte 1), fica a segunda parte do artigo. Para os amantes de ficção científica e sobretudo para aqueles que se entusiasmaram com o ambiente e narrativa desta obra prima, um pequeno bónus... o livro em PDF no final.

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A segunda parte, “Fiat Lux” ["Let There be Light"], transporta-nos para outro período que tem muita semelhança com o Renascimento. A ciência está prestes a livrar-se das grilhetas da religião, a electricidade é reinventada. A aurora de uma nova era está personificada no confiante cientista Thon Taddeo.Dom Paolo, um abade velho e gentil, duvida que as bênçãos das novas invenções tecnológicas possam ajudar o progresso espiritual do ser humano e tenta manter a sua fé.

“O Mestre Taddeo estava olhando para alguma coisa embaixo, na rua. Acenou para o padre. — Venha aqui um momento. Vou mostrar a você por quê.

Apollo levantou-se da escrivaninha e olhou para a rua lamacenta, além do muro que circundava o palácio, e as barracas e construções do collegium, isolando o grande santuário da fervilhante cidade plebeia. O escolástico apontava para a sombria figura de um campónio conduzindo um burro naquela meia-luz. Seus pés estavam envoltos em saco, e a lama endurecera neles a ponto de mal poder levantá-los. Assim mesmo, avançava com dificuldade, passo a passo, descansando meio minuto entre um e outro. Parecia fatigado demais para raspar o barro que lhe tolhia os movimentos.

— Ele não vem montado no burro — declarou Mestre Taddeo — porque hoje de manhã o animal estava carregado com grande quantidade de milho. Não lhe ocorre que os cestos agora estão vazios. O que fez de manhã continua a fazer de tarde.

— Você o conhece?

— Ele passa pela minha janela também. Todas as manhãs e todas as tardes. Você nunca o tinha notado?

— Há mil como ele.

— Olhe. Você consegue acreditar que aquele bruto é descendente directo de homens que, segundo se supõe, inventaram máquinas voadoras, viajaram para a Lua, dominaram as forças da natureza, construíram máquinas falantes e, aparentemente, pensantes? Você acredita que tais homens tenham existido?

Apollo guardou silêncio.

— Olhe para ele! — insistiu o escolástico. — Não, já está escuro demais. Você não pode ver os sinais de sífilis no pescoço dele, e o modo como o nariz está sendo destruído. Para começar, trata-se de um débil mental. Iletrado, supersticioso, perigoso. Transmite doenças aos filhos. Por umas poucas moedas, seria capaz de matá-los.

Quando forem bastante crescidos para serem úteis, serão vendidos. Olhe para ele e diga-me se reconhece a descendência de uma civilização que já foi poderosa. Que vê você?

— A imagem de Cristo — respondeu com violência o monsenhor, surpreso com sua própria ira. — Que mais queria você que eu visse?

O escolástico impacientou-se. — A incongruência. Homens como os que vemos de nossas janelas e homens como os historiadores querem nos fazer crer que existiram. Não posso aceitá-lo. Como é possível que uma grande e sábia civilização se tenha destruído tão completamente?”

Na última parte, “Fiat voluntas tua” ["Thy Will Be Done"], o mundo deriva de novo para uma crise mundial: uma guerra nuclear. A Ordem de Leibowitz perdeu o seu poder mas prepara uma nave espacial para escapar do previsível segundo holocausto. Um grupo de clérigos e crianças parte da Terra para começar nova vida num planeta da estrela Alfa Centauro.

“Havia outra vez naves espaciais naquele século, tripuladas por entes estranhos com duas pernas e cabelos na cabeça. Eram uma espécie palradora. Pertenciam a uma raça perfeitamente capaz de admirar a própria imagem num espelho e cortar o próprio pescoço diante de certos deuses tribais, como a divindade "Faça a barba diariamente". Consideravam-se basicamente uma raça de ferramenteiros divinamente inspirados: qualquer entidade inteligente de Arcturus perceberia logo que eram, fundamentalmente, um povo de apaixonados oradores de fim de banquete.

Sentiam que era inevitável, como o próprio destino, que uma raça como a deles saísse a conquistar estrelas. Conquistá-las várias vezes, se preciso fosse, e, certamente, fazer discursos a respeito das conquistas. Mas era também inevitável que tal raça sucumbisse outra vez a antigas moléstias nos novos mundos, como sucedera na Terra, na ladainha da vida e na liturgia especial do Homem: versículos por Adão, réplicas pelo Crucificado.

Nós somos os séculos.

Nós somos os cortadores de barba e breve discutiremos a amputação da sua cabeça.

Nós somos os seus lixeiros cantantes, Senhor e Senhora, e marchamos atrás de vocês entoando rimas que alguns julgam estranhas.

Hum, tóis, trrês, quatrro

Esquerda!

Esquerda!

Ele-tinha-uma-mulher-mas

Esquerda!

Esquerda!

Esquerda!

Direita!

Esquerda!

Wir, como dizem no país de origem, marschieren weiter wenn alles in Scherben fällt (Nós continuaremos a marchar quando tudo cair em pedaços).

Nós temos os eólitos, mesólitos e neólitos de vocês, as Babilónias e Pompéias, os Césares e os artefactos cromados (impregnados de ingredientes vitais).

Nós temos as machadinhas sanguinolentas e as Hiroximas. Mergulhamos apesar do Inferno, marchamos. . .

Atrofia, Eutropia e Proteus vulgaris, dizendo gracejos obscenos a respeito de uma camponesa chamada Eva e de um caixeiro viajante chamado Lúcifer.

Nós enterramos os mortos e a reputação deles.

Nós enterramos vocês. Nós somos os séculos.

Nasçam pois, inspirem o ar, berrem com o tapa do obstetra, procurem chegar à maturidade, provem um pouco de divindade, sintam dor, dêem à luz, debatam-se um pouco, sucumbam.

(Ao morrer, saiam sem barulho pela porta dos fundos, por favor.)”

O Livro em PDF para download, aqui.


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