Viagens #3: à fresquinha é que é bom


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As casas-de-banho em Marrocos lembram-me as dos cafés portugueses aqui há 20 ou 25 anos. Aqueles que são mais ou menos da mesma colheita que eu hão-de lembrar-se: chão alagado, sanitas com sujidade de décadas, quando não entupidas, autoclismos que funcionavam de vez em quando, papel higiénico - nem vê-lo. Ainda se encontram umas destas, mas o panorama geral melhorou muito. Esta é uma das várias coisas em que Marrocos me lembra o Portugal de há algumas décadas (outra é a forma como os homens olham uma mulher sozinha, os sorrisos esfomeados, os piropos que, infelizmente, não consigo perceber).

Nas minhas outras viagens por cá já tinha chegado a uma conclusão: por aqui, a melhor casa-de-banho é o ar livre. Nas cidades, esta alternativa não existe; no campo, a única dificuldade é encontrar um cantinho escondido. Mesmo quando estamos convencidos de estar sozinhos, e vemos um acolhedor maciço de canas ou uns arbustos com altura e largura adequadas, se possível em forma de meia-lua, não é raro ouvirmos um 'Salam!' simpático quando começávamos já a desapertar as calças. Não sei de onde vêm eles, mas andam ali.

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Aqui, usam-se as sanitas turcas, aquelas em que nos baixamos e apontamos para o buraco. Costuma haver uma torneira e um balde pequeno ao lado para despejar depois de terminado o serviço e para lavarmos as mãos (sabão e toalha é que nunca há). Muitas delas são de cimento pintado, portanto à medida que a tinta sai o aspecto não beneficia muito o ar de limpeza do local. Quando o chão está sujo, atiram-se grandes baldes de água, e quem vier a seguir, com terra nos sapatos, faz mais lama. Depois, fazem-se estranhas instalações: sanita com ventosa desentupidora a tapar o buraco; sanita com garrafa de produto de limpeza a tapar o buraco; sanita com garrafa de água de 1,5 l a tapar o buraco. Da primeira vez fiquei um bocado a olhar, a tentar decidir se era para tirar ou não a garrafa de água. Para que era aquilo? Não bastava ter de fazer pontaria ao buraco? Teriam medo de que alguma matéria por ali entrada tentasse regressar? Depois pensei que era provavelmente para evitar que os bichos, ou os cheiros, subissem. Tirei a garrafa e pensei se não haveria nenhum cavalheiro que se divertisse a fazer-lhe pontaria quando ali ia. Afastei da cabeça estes tristes pensamentos.

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Uma coisa de que me apercebi nesta viagem é que os marroquinos vão à casa-de-banho menos que nós (pelo menos, menos que eu) - muito menos. Já tenho acompanhado pessoas ao longo de todo o dia sem que as veja ir nunca à casa-de-banho. Já eu ando sempre em stress a pensar no momento em que terei de ir à casa-de-banho, e naquilo que me poderá esperar. Um dia, no vale, tinha ido jantar a casa de umas tias e primas de uma pessoa conhecida; era uma casa muito rústica, com algumas divisões ainda de chão de terra batida. A certa altura disse que ia sair para ir à casa-de-banho e olharam-me com ar surpreendido dizendo que, evidentemente, a casa tinha WC! Porquê ir à rua? Portanto, numa outra noite, numa outra casa, não querendo parecer arrogante, pedi para ir à casa-de-banho. Começaram a rir. Não havia casa-de-banho. Não há problema, disse eu, vou à rua. A filha da dona da casa chamou-me e fez-me subir dois ou três degraus até ao terraço. O terraço é uma plataforma em terra batida, sem resguardo, onde esta a parabólica e que geralmente da para o pátio onde estão os animais. Neste caso, era onde estava também o estendal da roupa. A rapariga fez um gesto a convidar-me a usar o terraço como casa-de-banho, e eu não quis acreditar. Fiz o meu melhor ar de quem não esta à altura de gozar de um tal luxo e acenei para mostrar que ia antes à rua. Tive alguma inveja da vaca, la em baixo, a fazer o que lhe apetecia quando tinha vontade.

O dia mais complicado, no entanto, foi quando andámos a fazer visitas várias pelo vale ao longo de todo o dia. Como nunca sabia quanto tempo íamos ficar em que casa, e se a casa tinha ou não WC, e como tinha medo dos terraços, tentei ir aguentando. À tarde começámos um novo round de visitas, conversas e chás. Fui adiando a próxima vez. Teoricamente, estávamos sempre prestes a ir para casa - aquele sítio onde a casa-de-banho está limpa. Mas sistematicamente éramos abordadas por alguém que precisava de falar com a minha companheira do dia, e que nos convidava para um chá ou um café e um pãozinho com azeite. Quando a coisa começou a apertar, tentei encontrar um sítio simpático ao ar livre, mas para meu azar era a hora de as mulheres estarem no campo a cortar erva para os animais. Aguentei mais, até ser já noite. E a hora certa, pensei, desistindo de esperar o regresso a casa, porque é fácil arranjar um cantinho escondido. Disse à minha companheira de viagem que ia procurar uma casa-de-banho, e ela disse "Ah, mas podes ir aqui na Junta de Freguesia!".

Arrepiei-me. Depois, vi que a porta da casa-de-banho estava fechada à chave e tive alguma esperança; finalmente, quando abriram a porta, arrependi-me amargamente. Era o kit completo: chão alagado, cheiro intenso, a sensação de que nunca ninguém tinha limpo aquele cubículo. Olhei para a sanita; Não conseguia ver bem, porque não havia luz. Tanto melhor. Arregacei as calças até aos joelhos, fiz o que tinha a fazer e saí dali. Não havia sequer uma torneira para encher o balde de água e despejá-lo no buraco. Cá fora, o lavatório tinha uma camada castanha de terra e sujidade incrustada. Achei mais provável apanhar alguma doença se tocasse naquela torneira do que com qualquer bicharoco maléfico que houvesse nas minhas próprias mãos. Moral da historia: à fresquinha é que é bom, e quanto mais cedo melhor.


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