Viagens #1: Ait Bougamez - como cá cheguei


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O vale de Ait Bouguemez, no Alto Atlas, Marrocos, é provavelmente o sitio mais bonito onde já estive. É todo ele um postal - uma planície verde, cheia de nogueiras que são tudo o que podemos querer numa árvore, com casas de terra batida empilhadas nas encostas e as montanhas enormes a rodearem-no de todos os lados, sem deixar ver uma saída. É uma ilha, o inverso de uma ilha; a terra que ocupamos assenta como um mar ou um grande lago, e em redor são as rochas a crescer vindas do fundo desse mar. Toda a terra é cruzada de canais de rega, água da montanha, com nascentes e ribeiros. Estive cá uma vez em 2004 e não me esqueci. Por vários motivos, é o sitio para onde se quer vir - e eu vim. Por uns tempos, por vários motivos pessoais que não têm aqui cabimento, para ver como se está no campo.

O vale, a uma altitude de cerca de 1800m, com uns 12 km de extensão e menos de 1km de largura, esteve muito isolado até à construção de uma estrada, há cerca de 10 anos; é um pequeno reino, um jardim, uma película de terra bem tratada no meio das montanhas do Atlas. A população é berbere, e não árabe. Embora sejam igualmente muçulmanos, têm as suas próprias tradições e costumes, a sua língua (um dos vários dialectos berberes do norte de África), os seus modos de vida. Empurrados para as montanhas há vários séculos pela ocupação árabe, mantiveram-se como pastores, praticantes da transumância. E almocreves, negociantes de gado, agricultores, e actualmente taxistas, condutores de carrinhas, guias de montanha e faz-tudo.

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O vale já não é o fim do mundo; há um hospital (é pelo menos esse o nome que lhe dão), há as transit e os táxis que diariamente fazem a estrada de Azilal (capital da província) ao vale, cerca de uma hora e meia para 80 km de montanha. Há a febre dos sacos de plástico, das sandálias de plástico, dos garrafões de plástico, há umas amostras de prédios sem sistema de esgotos a funcionar. Há a televisão por satélite (quando cá estive em 2004 nem todas as aldeias tinham ainda electricidade), há os turistas, sobretudo franceses, que vêm em percursos pedestres ou de bicicleta, acompanhados de um guia local. Foi numa destas viagens, aliás, que pela primeira vez cá estive.

Existe na vila de Tabant, sede de tudo o que são serviços e organismos oficiais, uma escola de profissões de montanha que forma anualmente 40 guias (escolhidos, segundo me disseram, de entre 300 a 400 candidatos). E uma das poucas saídas profissionais para aqueles que não querem dedicar-se à agricultura - ou seja, para quase todos os homens, já que, tirando tarefas como o controle dos canais de rega, a condução do arado, e a compra e venda de gado e outros produtos, são sobretudo as mulheres que trabalham a terra (e em casa, claro está).

Cheguei ao vale em Maio, numa altura em que ainda se viam, nos cumes mais altos, manchas de neve. Cheguei num dia em que havia nuvens baixas, e as montanhas não acabavam e a manhã era muito fria. Não tenho data definida para ir embora.


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