Panóptico #3: expansão e epílogo


2007051900_blog.uncovering.org_arquitetura_panoptico_jeremy_bentham_alt-moabit-prison_berlin_1869-71.jpg Prisão de Alt-Moabit, Berlin, 1869-71

A última instância onde o panoptismo pôde chegar foi a invisibilidade; justamente o seu ponto ideal. A penetração por todas as instituições físicas minou para as não-físicas até que ele passou a estar em todos os lugares – e o que está em todos os lugares, costuma estar em parte alguma. A estrutura arquitetônica panóptica de Bentham pôs-se então a ser construída dentro das mentes oitocentistas.

A Declaração dos Direitos do Homem (1793) foi durante muito tempo ainda uma categoria indefinida e abstrata aos indivíduos - a crescente burguesia - que tentavam confusa e alegremente digeri-la. Entendem que, em suma, ela lhes deu direito a serem de si mesmos, a arquitetarem seus próprios destinos e a construírem suas próprias identidades. Assim, a privacy, a privacidade, tornou-se expressão da liberdade, do indivíduo, e incitou o advento da fotografia, dos diários, das confissões ao pé da sacristia, do estar-se só. A inviolabilidade do domicílio e o direito ao segredo de correspondência são reconhecidos - ainda que pouco praticados, há de se dizer -, o homossexualismo deixa de ser visto como um delito e lentamente os corpos passam a se fechar em seu próprio torno.

Mas, num movimento tanto paradoxal, a imprensa (apoiada por seus consumidores) passa a preocupar-se, a avidamente interessar-se pela vida privada alheia, tornando o vigiar um dever, não concernente apenas às autoridades, mas um direito de todos; o direito ao saber e à satisfação das curiosidades: “o inconveniente do reinado da opinião que busca a liberdade é que esta se intromete onde não deve: na vida privada”, diria Stendhal.

Até mesmo as autoridades passam a se beneficiar e a utilizar-se cada vez mais efusivamente das relações de interconhecimento; adotam o sistema de identificação individual como o Estado civil (1752), a carteira para os operários e para os militares, passaportes para os imigrantes, fichamento para as prostitutas e crianças abandonadas; vão dando nomes e rostos aos diversos pontos da rede que constituía então a comunidade urbana. Quando se faz necessário aprofundar as informações contidas nesses cadastros, lá estão em cena as investigações da moralidade, os vigilantes às janelas, o prefeito, o padre, interrogando a vizinhança, levantando boatos que apontam a boa ou má fama de um pelo bem-estar de todos no malicioso desvendar da vida privada. Um controle da mente sobre a mente, como a descrição que Benthan fez de seu próprio aparelho.

A obsessão pelo saber e pelo conhecer acaba por provocar um novo fenômeno científico-jurídico onde a busca pelo identificar, caracterizar e controlar transformou-se num medonho espetáculo antropológico cuja intenção era o de livrar a sociedade de toda e qualquer “anomalia” ou “endemia” humana, tentando torna-se uma massa uniforme de seres idênticos, moralizada e sã; fosse através das prisões, dos hospitais, dos internatos ou simplesmente pelo banimento do convívio social com a comunidade numa constante do vigiar e do punir. Uma busca d’uma sociedade ideal que nunca existiu...

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Planos arquitectónicos panópticos na galeria Olhares


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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