Viagens #2: Quantas pessoas leva um táxi?


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Há duas formas de transporte colectivo no vale: os táxis, velhas banheiras Mercedes que levam 6 passageiros (2 à frente, 4 atrás); e as transit, nome genérico dado a qualquer carrinha do tipo das Ford Transit, que levam um número ilimitado de passageiros. Os táxis são as grandes relíquias; muitas vezes, para um passageiro sair o motorista tem de levantar-se para lhe abrir a porta pelo lado de fora, porque por dentro não funciona; há apenas um pedaço de madeira ou tecido pregado ao forro da porta para conseguirmos puxar, depois de entrarmos (e se o táxi estiver mesmo muito cheio, tem de ser alguém a empurrar a porta do lado de fora).

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Uma carrinha-táxi de 8 lugares pode levar 13 pessoas, entre adultos e crianças. Eu estive lá e vi. Números 1 e 2: eu e um cavalheiro com estojo de portátil a tiracolo, no lugar do morto, bem aconchegados. Eu tinha entrado para trás, mas ele disse-me que passasse para a frente quando fizemos a primeira paragem para recolher um grupo de mulheres que ia para um casamento. Entraram, pois, as mulheres números 3 a 9. A segunda paragem foi 100 metros à frente: um miúdo que queria (ou não queria, não percebi) que lhe entregassem um pacote numa aldeia mais à frente. Gerou-se uma grande discussão. O miúdo estava zangado e não queria entregar o pacote a uma das convidadas do casamento. Ela começou a irritar-se, saiu do carro e gritou com ele. Ele fugiu para trás, voltou para o pé do táxi e alguém lhe arrancou o pacote das mãos - enquanto ele batia na porta do táxi, amuado.

A partir da terceira paragem, deixei de perceber. Saiam dois, entravam três - mas eram os mesmos? Das convidadas do casamento, parecia-me que já só restava uma, a da pastilha elástica; mas na paragem seguinte tinha a sensação de que reapareciam as originais. Percebi depois que, a cada paragem, iam trocando de lugares entre os dois bancos de trás, para se ajeitarem aos novos passageiros. Uma miúda que ia para o casamento berrava de uma maneira inacreditável, com um bocado de pão na mão e outro meio mastigado na boca, amuada não sei com quê. Já éramos 12.

Para aí na quinta paragem entrou um rapaz de uns 11 anos que viajou no banco do motorista - entalado entre o pé da embraiagem e a porta. 200 metros à frente chegamos à aldeia do casamento. As mulheres saíram, ficou tudo mais calmo; o miúdo passou para o banco de trás; entraram dois ou três homens. Quase tive saudades. Uma carrinha de 8 lugares (a mesma - não há assim tantos táxis no vale) pode ainda levar o motorista, 7 passageiros, um caixote avantajado que ocupa metade dum banco e, na bagageira, três ovelhas e uma cabra que não quer fazer a viagem. As ovelhas entraram de forma relativamente calma; eu espreitava para trás e via-lhes o perfil, cada uma com um olhinho pestanudo a brilhar. A cabra, pequena e preta, esperneou, quase ficou entalada na porta da mala e foi toda a viagem a berrar (quase tanto como a miúda que ia para o casamento). Eu, mais uma vez, aconchegadinha no banco da frente, o meu cantinho privilegiado de mulher estrangeira.

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No Domingo, a voltar do souk de Tabant, resolvi experimentar a transit, porque teoricamente havia uma prestes a sair. Espreitei lá para dentro; parecia-me estar já cheia (oh, inocência!), mas o motorista fez-me sinal para entrar para o banco da frente. Instalei-me, sempre aconchegadinha, ao lado de um velhote; cumprimentei-o com o habitual salam aleikoum e ele tomou isso como sinal para iniciarmos conversa. Tentei mostrar-lhe que não falava berbere, mas ele continuou durante algum tempo, até que finalmente se virou para trás e disse qualquer coisa em tom desapontado a um outro passageiro. Perdi um amigo, pareceu-me. Estivemos ali parados ainda uma meia hora, a encher a carrinha. De vez em quando olhava para trás e percebia que, afinal, ainda havia muitos lugares que eu não tinha sido capaz de ver: lugares em pé, lá atrás; lugares sentados em banquinhos de plástico que se acrescentavam ao lado dos assentos originais da carrinha. Contei, por alto, umas 23 pessoas lá dentro, mais os sacos das compras do mercado.

A bagagem mais volumosa ia, juntamente com os passageiros mais ágeis, os rapazes, no tejadilho da carrinha, equipado com uma grade de transporte. Eu ouvia os passos dessa camada suplementar de passageiros por cima da cabeça; olhei pela janela: meio metro atrás, ao nível dos meus olhos, estava um pé empoeirado, depois uma perna magra numas calças de fazenda a subir até desaparecer ao nível do tejadilho. Não consegui contar quantos eram lá em cima, mas, olhando para as outras transits em redor, seriam mais uns 10. À saída de Tabant, a policia mandou-nos parar. Tudo normal, parece, e seguimos caminho. Tirando a falta de papéis, ainda não descobri o que pode levar a policia a intervir, aqui.


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