AK-47: a arma do século XX #3



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O neocolonialismo que se estabeleceu na Ásia e África desde o início do século XX, após a Segunda Guerra Mundial pôs-se a desmoronar através de revoltas que demandavam pela independência territorial dos domínios sob administração de países europeus como Holanda, França e Portugal. Mas o que tornava o caso Africano extremamente truncado era que as fronteiras estabelecidas por esses países da Europa simplesmente não condiziam com as fronteiras seculares estabelecidas entre as comunidades e tribos locais que, por tantas vezes inimigas, tinham de partilhar o mesmo espaço. Ignorando que esta explicação seja um tanto simplista – afinal isto não é uma aula da história – através dela podemos entender as conseqüências das lutas por independência dos países da África somadas ao ódio imemorial entre grupos que agora exigiam cada um ser a hegemonia local. Não só; junte ao parágrafo: imensas jazidas de diamantes, psicóticos, o extenso arsenal sem uso de uma ex-República Soviética e vendedores de armas interessados em fazer negócios com ela. Está aí a receita para que as fábricas de AK-47 tenham clientes para mais de meio século.

Libéria, Angola, Sudão e Moçambique foram os países da África que mais receberam carregamentos da Avtomat Kalashnikov 1947. As fontes eram fábricas na Albânia, Egito, Hungria, Alemanha, Bulgária, entre outras, que as forneceram aos estados africanos em formação. Ou seja, forneceram a todas as milícias que disputavam, cada uma em seu local, serem o governo de seus estados em formação. Líderes rebeldes armaram populações inteiras, inclusive crianças que, como já vimos, podiam manejar este rifle bastante simples e mortífero. Logo, o produto tornou-se tão abundante que chegou a ser vendido a US$ 10 ou trocado por um cacho de bananas. Com diamantes do Togo e da Guiné, o ditador Charles Taylor fez chover abundantemente a kalashnikova na Libéria. Em 1975, a guerra de dez anos pela libertação de Moçambique chegava ao fim e, na seqüência, um conflito civil onde o país seguiu por um calvário de tendências políticas. Quando da assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1994, a bandeira nacional já estava estabelecida: nela figura potente uma AK-47 como símbolo de um povo e sua luta.

Mas ainda restava a América do Sul a ser conquistada. Como já vimos, este rifle de assalto adapta-se muito bem às mais diversas condições como umidade e terrenos lamacentos. Qual arma poderia ser preferida pelas milícias latinas? A AK-47 chegou à Nicarágua nos anos de 1970, comprada com a mercadoria abundante local, a cocaína, para colaborar nas lutas da Frente Nacional de Libertação Sandinista (nome inspirado no general Augusto Sandino) que depôs, após 40 anos de ditadura da família Somoza, o presidente Anastásio Somoza. Os rebeldes da esquerda comunista tomaram o poder e construíram em Manágua – capital do país – a estátua de um guerrilheiro erguendo uma kalashnikova. Lê-se impresso em sua base: “No final só restarão trabalhadores e camponeses”. Na verdade restaram também muitos rifles AK-47 que passaram então a ser revendidos nos vizinhos como Honduras e El Salvador, daí para narcotraficantes e facções rebeldes do Peru, Colômbia e Brasil, onde é vendida a preços baixos e figura como uma arma básica nas mãos de membros do Comando Vermelho – no Rio de Janeiro - ou do Primeiro Comando da Capital - em São Paulo. São cantadas alegremente nas festas de funk ou rap locais.

Chegam ainda hoje na América Latina de forma legal. Em 2005, Hugo Chávez adquiriu da Rússia 100 000 Aks e já anunciou a intenção de construir no país uma fábrica de AK-103 nos arredores de Caracas. Ou seja, a AK-47 adentra o século XXI gozando de uma saúde invejável, a despeito de todo sangue derramado – estima-se que tenha matado, pelo menos, 7 milhões de pessoas com suas quase 100 milhões de unidades fabricadas. Seu criador também não vai mal: Mikail Kalishnikov tem hoje 87 anos, uma marca de vodka que leva seu nome e publicou há dois anos suas memórias no livro “Rajadas da História”. Vive uma vida tranqüila numa casa entre os bosques dos montes Urais, na Rússia.

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Para ler mais: Rajadas da História, o fuzil AK-47 da Russia de Stálin até hoje de Mikail Kalashnikov e Elena Joly

priscilla santos

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