
Villa Ephrussi de Rothschild
É verdade que alguns livros publicados por historiadores têm uma linguagem muito aborrecida que rende a alguns deles apelidos nada agradáveis pelos corredores das academias afora (por exemplo, Perry Anderson já há tempos passou se chamar Porre Anderson). Mas esse não é o caso de David Landes; com seu texto elétrico, o historiador emérito de História Econômica em Harvard, destrincha os processos de mudanças quase que subvertendo a tradição historiográfica por não chegar nem perto dos imensos modelos evolutivos-explicativos da História.
O livro Dinastias apresenta uma série de 13 rápidos esboços sobre grandes famílias mercantis de empreendimentos bancários, automobilísticos, de ferro, óleo e mineração. Alguns casos são velhos conhecidos dos que minimamente se interessam pela história dos negócios como os Ford, os Rockfeller e os Toyoda (Toyota).
Landes atravessa os séculos XVIII, XIX e XX mergulhado nos eventos que transformaram cada uma dessas famílias em impérios - alguns hoje tanto ruídos como o Baring - num texto instigante que nos leva a todos os continentes, aos ciclos sociais das fortunas, aos escândalos, preguiças, guerras, “arrogâncias e condescendências”, mostrando a influência que essas famílias tiveram sobre determinadas nações seja (ou fosse) através de negociações diretas com governos e imperadores por empréstimos, subvenções ou monopólios ou através de seus sucessos ou bancarrotas capazes de influenciar a vida de milhares pessoas envolvidas direta ou indiretamente com esta ou aquela empresa.
O empreendedorismo, a superação e a sorte são elementos sempre presentes nessas narrativas: Rothschild, Morgan, Baring, Ford, Agnelli, Guggenheim, Toyota, Walton, Peugeot, Renault, Rockefeller... estão todos unidos por esses elementos e têm suas trajetória coroadas de estratégias que acabam por nos deixar confusos às vezes: a idéia que temos é de que os negócios de nossos tempos tendem a se alargar, a se racionalizarem. Como então as empresas familiares controlam de 70% a 90% de todos as empresas do mundo? Essa é exatamente a maior provocação que o livro faz: parece que as estratégias liberais clássicas não podem contra certas estratégias tradicionalistas baseadas nas relações sociais de confiança que existem (ou que devem existir) no seio das famílias. Da mesma forma que a livre e igualitária concorrência se mostra uma ilusão necessária.
Num exemplo do peso dessas relações sócio-familiares encontramos o Rothschild Mayer Amschel. Ao morrer este deixou um testamento em que deixava expresso que todos os membros da família deveriam se casar com seus próprios primos de primeiro e segundo graus, preservando assim a vasta fortuna. A regra foi obedecida à princípio, os negócios prosperam com a endogamia, bem como o judaísmo familiar. Porém, mais tarde, outras casas judaicas floresceram, alguns tornaram-se dissidêntes e tudo (aspas para 'tudo') afrouxou-se. Esses tipos de casamentos profissionais parecem ser fundamentais na manutenção das empresas familiares.
Assim, como um contador de histórias, David Landes nos faz assistir ao épico da criação da Standart Oil, a ascensão da Ford Motor Company, as influências das famílias Citröen e Peugeaut , a mão de ferro do velho Walton que sustenta o imenso Wal-Mart.. Isso entre muitos bastidores caustica e sarcasticamente comentados pelo autor que ao final no trás a certeza de uma leitura extremamente prazerosa e instigante.
3 comentários
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Nicéas Romeo Zanchett
GANHAR DINHEIRO É A MÉTA. Os grandes empreendedores que criaram fortunas enormes buscavam a felicidade atravez do dinheiro. O livro Dinastias mostra claramente isto.
Ganhar dinheiro torna-se um vício insuperpavel. Na verdade a felicidade acaba sendo sacrificada em função do objetivo maior que é sempre ganhar mais.
A verdadeira felicidade está em fazer tudo com prazer, mas é preciso ter limites.
No caso das dinastias o dinheiro passa a ser o dono dos empreendedores que passam a viver escravisados e em função dêle.
No meu caso oque mais me faz feliz é produzir arte.
veja meu site>> http://www.maerz.com.br http://www.artmajeur.com/niceasromeozanchett
prill
Acredito se tratar de algo que vai muito além do dinheiro, Nicéas. Trata-se de valorizar as construções de uma vida inteira dedicada à reunir um patrimônio, não só financeiro, mas fortemente ligado ao poder, ao status e à privilégios. Isso pode soar frívolo, mas não é.
Pessoas como Moisés Amschel Bauer e seu filho Mayer Amschel Bauer foram disciplinadas e perseverantes: eram pequenos negociantes de um gueto judeu, considerados páreas em sua sociedade, mas se tornaram uma dinastia poderosa. Trata-se de agregar valores para si e para os seus... isso é fascinante!
Certas pessoas são de tal forma perspicazes e obstinadas... parecem quase que designados a influenciar o seu tempo. Vemos isso nas artes também não? Frida Kahlo, Baudelaire, Picasso, Machado de Assis, Robert Johnson... enfim. A meta é o dinheiro? Há muito sangue e dedicação nessas histórias, as simplificações não cabem.
Já me alonguei muito. Mas me senti provocada pela sua fala. Obrigada.
Claudio Hess
se minha prima fosse rica, eu me casaria com ela, claro, com separação de bens, pois não gostaria de ser corrompido e depois não poder passar na tal agulha pra ir pro céu, oras !!
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