Drummond: Morte do Leiteiro



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Na minha época de escola, tive a sorte grande de esbarrar com materiais didáticos fantásticos. Fantásticos ainda que franciscanamente simples. O meu favorito era uma fita K7 que acompanhava um dos nossos livros de literatura. Numa dessas feiras de estudantes, feira de letras ou de palavras (não lembro o nome...) eu resolvi que íamos apresentar poemas Modernistas - sim, resolvi; eu acreditava ser o Napoleão Bonaparte do meu grupo de amigas, um osso! Acabei por me atracar noites e noites com os cassetes ouvindo poemas recitados do Mário de Andrade. Meu favorito era "Ode ao burguês" (como todo bom latino-americano, eu tive lá meus momentos de petit comunista) que eu acabaria recitando inúmeras vezes pelos corredores do colégio e pelos cômodos da casa, sob aprovação amorosa do meu pai - o socialista mais capitalista que conheço. Passado esse furor vermelho e passada a feira de Letras ou Palavras (?) pude me aventurar com mais calma nos outros poemas: Manoel Bandeira, Gonçalves Dias, Euclides da Cunha e por aí foi. Hoje a verdade é que muita coisa já está desbotada na minha cabeça, não sou genial a esse ponto: pra cada informação nova, a outra mais desusada cai lá longe. Mas ainda me parece meio fresco, lembro de cor diversos trechos e fico sempre estranhamente emocionada, instigada. Me lembra um país que eu nunca vi e de que não sinto saudades, mas que me atrai como um impulso masoquista... Bem, é este Drummond. Encontrei aqui perdido na HD e resolvi trazer pra cá. Espero que gostem. Se chama "Morte do Leiteiro".

Há pouco leite no país é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro de madrugada com sua lata sai correndo e distribuindo leite bom para gente ruim. Sua lata, suas garrafas, seus sapatos de borracha vão dizendo aos homens no sono que alguém acordou cedinho e veio do último subúrbio trazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vaca para todos criarem força na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca não tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro. morador na Rua Namur, empregado no entreposto Com 21 anos de idade, sabe lá o que seja impulso de humana compreensão. E já que tem pressa, o corpo vai deixando à beira das casas uma pequena mercadoria.

E como a porta dos fundos também escondesse gente que aspira ao pouco de leite disponível em nosso tempo, avancemos por esse beco, peguemos o corredor, depositemos o litro... Sem fazer barulho, é claro, que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil de passo maneiro e leve, antes desliza que marcha. É certo que algum rumor sempre se faz: passo errado, vaso de flor no caminho, cão latindo por princípio, ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda, resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta saltou para sua mão. Ladrão? se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, não sei, é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono de todo, e foge pra rua. Meu Deus, matei um inocente. Bala que mata gatuno também serve pra furtar a vida de nosso irmão. Quem quiser que chame médico, polícia não bota a mão neste filho de meu pai. Está salva a propriedade. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar, mas o leiteiro estatelado, ao relento, perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada. no ladrilho já sereno escorre uma coisa espessa que é leite, sangue... não sei Por entre objetos confusos, mal redimidos da noite, duas cores se procuram, suavemente se tocam, amorosamente se enlaçam, formando um terceiro tom a que chamamos aurora.

priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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