Viagens #7: a pedrada


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Personagem atirando uma pedra a um pássaro - Joan Miró, 1926

A pedrada é uma forma de relacionamento complexa, aqui no vale. Há vários tipos de pedradas: as que servem para os rapazes brincarem, a fazerem pontaria; as dos pastores a conduzirem o gado; finalmente, as pedradas a sério, que são para doer, com pedras que podem bem partir uma cabeça, quando os miúdos se zangam uns com os outros ou mesmo quando os adultos se zangam com eles. Um dia, a sair de uma aldeia, vi uma mulher a gritar furiosa e a correr um bando de rapazes à pedrada. De vez em quando, um dos rapazes respondia-lhe na mesma moeda, mas era ela a grande artista, realmente empenhada, a levantar nuvens de poeira e a fazer os miúdos darem grandes saltos e chamarem-lhe nomes.

Num outro dia, ao fim da tarde, ia eu com uma amiga na estrada quando parámos para falar com uma mulher que estava a preparar-se para cozer o pão. A filha dela veio a correr; era uma miúda de uns 8 anos, com ar atrevido, orelhas saídas, vestida com umas calças de tecido turco sujas, umas sandálias de plástico e um vestido de renda branca reluzente. Era um conjunto extraordinário; parecia um anjinho sujo, naquele vestido de primeira comunhão cheio de franzidos, de tules, de fitas e rendinhas. A mãe zangou-se com ela não sei porquê; a seguir veio o pai, mais zangado ainda, a chamá-la. Mas ela não queria ir, e começou a fugir, a correr pela encosta. O pai tinha ar de bruto - de tal maneira realista que só podia ser mesmo um bruto. Furioso, começou a perseguir a miúda à pedrada, com a sua melhor pontaria. E ela continuava a correr pela encosta, a fugir em saltinhos e risinhos histéricos, obviamente cheia de medo do que a esperava se voltasse para o pai naquele momento, a preferir contar com a probabilidade de conseguir fugir às pedradas. De onde estava, com a noite já a cair, eu só via um vestido branco meio fluorescente cheio de roda a saltitar por entre os rastos de poeira que as pedras levantavam. Era quase bonito.


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