Viagens #8: o Profeta


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O Profeta chegou às 10h da manhã, com um ar ligeiramente ofegante. A sessão de formação tinha começado às 9h. Trazia um boné azul escuro com um grande K bordado a vermelho e amarelo, calças de sarja castanhas, uma camisa e um blusão já gasto de meia estação. Não percebi logo que era o Profeta. Toda a manhã manteve o boné na cabeça e um silêncio discreto. Foi à hora de almoço que comecei a detectar os sinais. Estávamos na mesma mesa, e o organizador da formação, sentado ao meu lado, falou com o Profeta em tom espantado e depois disse-me a mim: - O O. fez 48 km a pé para vir a esta formação. Olhei para o Profeta, incrédula. Quarenta e oito? O organizador fez-lhe mais algumas perguntas, e virou-se de novo para mim: - Veio por Ait Bououli... demorou 6 horas. Eu tive a certeza de que tinha ouvido mal. Com certeza eram 16 horas. E, ainda assim, era já uma corrida épica, tendo em conta que parte do caminho é por carreiros de montanha, e não por estrada.

Olhei melhor para o Profeta: baixo e magro - muito magro e seco, com a carne estritamente necessária para dar forma ao corpo, para colar o nariz à boca, a boca às maçãs do rosto, primeiro encovadas, como se o maxilar e os dentes se inclinassem para dentro, depois engrossando como o colo de um monte ao chegar aos olhos, pequenos e juntos, como os olhos de tantas fisionomias do Médio Oriente. O bigode e a pêra compunham o desenho mínimo do maxilar: uma barba enrodilhada e densa, curta, como carqueja ou algas secas, que ele acariciava com a mão. Havia qualquer coisa de lagartixa no conjunto.

No final do almoço voltei a perguntar quanto tempo tinha demorado o Profeta, para desfazer equívocos, e repetiram-me: 6 horas. - A sério? Mas isso é muito, muito rápido; - disse eu - são 8 km por hora e, a andar bem, uma pessoa normal faz uns 4... - Bom, 5 ou 6, a andar normalmente. - corrigiu o organizador. - E por caminhos de montanha, - continuei - 48 km, é uma maratona! Mas foi só no dia seguinte que me convenci de que era mesmo o Profeta: entrou na sala, sentou-se e pousou o boné sobre a mesa. De onde eu estava via-se uma cabeça pequena, à medida certa para o homem que ele era, muito redonda, cheia de caracóis curtos e bem desenhados, muito encaixados, como aqueles fósseis que cobrem a superfície de certas rochas. Caracóis magníficos; lembrei-me de que, na Odisseia, Atena altera a certa altura o aspecto de Ulisses para que ele surja mais belo aos olhos de quem vai recebê-lo, e diz então o texto que a deusa lhe põe na cabeça 'caracóis como um jacinto'. Eram assim os caracóis do Profeta.

Agora, sem boné, era óbvio que era ele, saído das filmagens de um qualquer filme bíblico: os olhos resguardados no fundo das órbitas; as sobrancelhas e o início da testa a formar um arco que acentuava as sombras e protegia um olhar que parecia estar sempre com sede e com fome. O nariz, estreito e pequeno, curvava ligeiramente até ficar alinhado com o queixo e a barba. O Profeta sorria, e do canto de cada olho saíam cinco linhas muito direitas em direcção ao topo das orelhas. O Profeta falava, e a voz era como todo o corpo: miúda, resistente, uma voz de aluvião, como se, até chegar ali, tivesse atravessado um longo túnel de areia e de mel.

Claro, o Profeta era uma fraude. Passei alguns dias a matutar nos 8 km por hora, e em como me pareciam inverosímeis. Confirmei com um guia de montanha que não era possível fazer aquele trajecto a essa velocidade (nem esse, nem outro: 4 km/h é mesmo uma velocidade de marcha rápida). Já no segundo dia, ao final da tarde, eu começara a desconfiar, porque tinha reparado que as meias do Profeta eram cor-de-rosa bebé, com um desenho de lado que não consegui identificar, mas que podia bem ser um passarinho ou uma borboleta.


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