As saudações berberes são de uma diversidade fabulosa. Entre os homens, há o aperto de mão, levando-se de seguida a mão ao coração; ou o aperto de mão seguido de quatro beijos, alternando as faces. Não me apercebi de mais nenhuma versão.
Entre as mulheres, a coisa fia mais fino:
- aperto de mão, levando de seguida a própria mão à boca e beijando-a (ou como se fossemos beijá-la)
- aperto de mão e, ao mesmo tempo, um beijo numa face e dois (ou três, nunca se sabe) na outra, muito juntinhos, às vezes quase sem despegar a cara
- aperto de mão, levando cada uma a mão da outra à boca, para a beijar. Geralmente são três beijos alternados (portanto, a primeira mulher a beijar beija duas vezes a mão da outra - o primeiro e o terceiro beijo); e no fim cada uma leva a mão respectiva à boca e beija-a também.
- o mesmo que na alínea anterior, mas no final cada mulher beija a testa da outra, segurando-lhe a parte de trás da cabeça com a mão
Perceberam? Querem experimentar?
Não sei se me esqueci de alguma. Ainda não percebi bem os critérios, mas creio que o beija-mão, nas suas várias versões, se faz sobretudo quando a interlocutora-beijoqueira é uma mulher casada ou mais velha. O beijo na testa parece-me implicar uma afeição especial, assim como aqueles abraços que damos às pessoas de quem gostamos e que não vemos há algum tempo. Eu tento sempre que a iniciativa venha da parte contrária, para não haver confusões. Só costumo falhar na segunda hipótese, porque nunca se sabe se são dois ou três beijos e de vez em quando lá fica uma menina pendurada, com a cara esticada e sem levar nada em troca. Como vêem, não é só em Portugal que isto acontece.
A parte verbal da saudação é curiosa. Há umas três ou quatro ou cinco formas diferentes de perguntar se estamos bem - expressões curtas, do tipo 'Então?', 'Tudo bem?', 'Estás boa?' - que são repetidas, em loop, até que alguém tenha a misericórdia de dizer 'Hemdulila!' (não sei como se escreve), que é como quem diz 'Tudo bem, graças a Deus.' Ainda por cima, no caso dessas expressões a resposta é igual à pergunta, pelo que um diálogo destes pode ser traduzido à letra mais ou menos assim:
- Isso vai?
- Isso vai. Tudo bem?
- Tudo bem. Isso vai?
- Vai. Tudo em ordem?
- Tudo em ordem. Tudo bem?
- Tudo bem. Isso vai?
- Vai.
E etc., até ao misericordioso 'Hemdulila!'. Houve alturas em que me sentia aflita porque já não sabia que mais dizer, qual das expressões repetir pela terceira vez. O 'hemdulila' salvou-me.
3 comentários
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Thahy
nossa... não tinha parado para pensar nisso ainda... ;)
Sandra Leite
Interessante como isso varia de cultura para cultura.
Aqui no Brasil há diferenças geográficas (mas apenas na quantidade de beijos):
Em SP, 1 beijo apenas (versão econômica)
No Rio , 2 beijos (melhorou)
Em Minas Gerais, 3 beijos (eita povo beijoqueiro).
Eu que sou de Minas Gerais, mas moro hoje em SP, toda hora fico esperando o 2o e o 3o.
Mas eles não vêm! :-(
Bom é beijar.
bjs, no mínimo 3,
Sandra
Dehy coutinho
Deparo com um quadro famoso de Gustav Klint - O BEIJO
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