Viagens #9: as formas de saudação


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As saudações berberes são de uma diversidade fabulosa. Entre os homens, há o aperto de mão, levando-se de seguida a mão ao coração; ou o aperto de mão seguido de quatro beijos, alternando as faces. Não me apercebi de mais nenhuma versão. Entre as mulheres, a coisa fia mais fino: - aperto de mão, levando de seguida a própria mão à boca e beijando-a (ou como se fossemos beijá-la) - aperto de mão e, ao mesmo tempo, um beijo numa face e dois (ou três, nunca se sabe) na outra, muito juntinhos, às vezes quase sem despegar a cara - aperto de mão, levando cada uma a mão da outra à boca, para a beijar. Geralmente são três beijos alternados (portanto, a primeira mulher a beijar beija duas vezes a mão da outra - o primeiro e o terceiro beijo); e no fim cada uma leva a mão respectiva à boca e beija-a também. - o mesmo que na alínea anterior, mas no final cada mulher beija a testa da outra, segurando-lhe a parte de trás da cabeça com a mão

Perceberam? Querem experimentar?

Não sei se me esqueci de alguma. Ainda não percebi bem os critérios, mas creio que o beija-mão, nas suas várias versões, se faz sobretudo quando a interlocutora-beijoqueira é uma mulher casada ou mais velha. O beijo na testa parece-me implicar uma afeição especial, assim como aqueles abraços que damos às pessoas de quem gostamos e que não vemos há algum tempo. Eu tento sempre que a iniciativa venha da parte contrária, para não haver confusões. Só costumo falhar na segunda hipótese, porque nunca se sabe se são dois ou três beijos e de vez em quando lá fica uma menina pendurada, com a cara esticada e sem levar nada em troca. Como vêem, não é só em Portugal que isto acontece.

A parte verbal da saudação é curiosa. Há umas três ou quatro ou cinco formas diferentes de perguntar se estamos bem - expressões curtas, do tipo 'Então?', 'Tudo bem?', 'Estás boa?' - que são repetidas, em loop, até que alguém tenha a misericórdia de dizer 'Hemdulila!' (não sei como se escreve), que é como quem diz 'Tudo bem, graças a Deus.' Ainda por cima, no caso dessas expressões a resposta é igual à pergunta, pelo que um diálogo destes pode ser traduzido à letra mais ou menos assim:

- Isso vai? - Isso vai. Tudo bem? - Tudo bem. Isso vai? - Vai. Tudo em ordem? - Tudo em ordem. Tudo bem? - Tudo bem. Isso vai? - Vai. E etc., até ao misericordioso 'Hemdulila!'. Houve alturas em que me sentia aflita porque já não sabia que mais dizer, qual das expressões repetir pela terceira vez. O 'hemdulila' salvou-me.


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