Factos casuais #1


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Enganaste-te, Gotinha. O obvious aceita o desafio. Escrever sobre factos casuais é, afinal, o nosso dia-a-dia. Sete os factos, sete os Sacramentos, sete os Pecados Mortais. Os Antigos - astrólogos, alquimistas, pitagóricos, bíblicos - atribuíam a este número um significado especial. Sete eram os planetas segundo os sábios da Babilónia; sete os dias da semana; sete os animais sacrificados; sete as aspersões; sete os braços do candelabro do Santuário; sete as vezes que se deve louvar o Senhor; sete os dons do Espírito Santo. Santo Agostinho via mesmo no Sete o símbolo da perfeição e da plenitude. Estes factos nada casuais tornam-me indicado, julgo eu, para escrever este post...

O primeiro facto é a prisão de ventre. Não há manifestação fisiológica que traduza de forma tão pungente como esta o sentimento de amor ao lar. É algo comparável, quiçá superior, à mística da saudade. Longe de casa, o mais genuíno sinal de estranheza e falta do conforto doméstico é-nos outorgado pelo nosso intestino através de uma consistente, teimosa e prolongada obstipação! É a comida, é a cama, é o ritmo, é o próprio WC - tudo é diferente... Nada é tão democrático como a prisão de ventre. Se há algo que nos une neste imenso sentir lusófono não é a Língua de Camões e Pessoa, mas sim a obstipação! Por todo o mundo, uma legião de empedernidos anónimos, pseudo-emigrados, reprime um esfíncter grevista, uma cólica intestinal e uma lágrima de saudade ao canto do olho. Mas tudo se desata num fluxo libertador com o regresso a casa e o doce contacto do assento da nossa sanita...

Segundo facto: as pessoas que nos irritam. Há montes delas. Querem ver? As que conduzem com o chapéu na cabeça; as que falam ao mesmo tempo que nós; as que no médico, num café ou numa loja nos ignoram em lugar de nos atender; as que metem conversa quando também estão à espera de ser atendidas e nos contam a sua vida toda; as que têm uma grande colecção de qualquer coisa (discos, sobretudo); as que vêm contra nós e têm os mesmos reflexos; as que mudam o género ao grama (Dê-me duzentas gramas de fiambre se faz favor...); as que têm a mania de nos agarrar ou de nos mexer nos botões da camisa quando falam connosco; os imbecis.

A nossa vida é recheada de escolhos por todo o lado. Isto porque existe uma enorme e comprovada conspiração dos objectos inanimados contra nós. Por exemplo: furar um pneu do carro já de si é mau; porém, ao desapertar os parafusos verificamos que todos se soltam bem excepto um! E isto não é por acaso - É SEMPRE ASSIM! Já um ridículo frasco de compota, pickles ou azeitonas não consegue deixar-se abrir pacatamente, defendendo-se de duas formas: a) resistindo obstinadamente; b) cedendo no momento menos provável e derramando todo o seu conteúdo na alcatifa. As rolhas que caem dentro da garrafa são particularmente nefastas, bem como uma ataca do sapato que se solta quando corremos para subir para o comboio (a mesma que se recusa a soltar quando nos queremos descalçar). Nada iguala a ferocidade do afia-lápis que, não satisfeito em partir a mina do lápis, a conserva bem presa lá dentro para nos impedir nova tentativa! Se ainda tiverem dúvidas do que digo façam a seguinte experiência: numa sala VAZIA, onde apenas haja um móvel, deixem cair ao chão qualquer objecto redondo ou esférico - uma moeda, um berlinde, etc. Para onde julgam que o sinistro objecto vai rolar?


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