Fausto: poeta e trovador


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Quando, nos idos de 1982, Carlos Fausto Gomes Bordalo Dias compôs e editou "Por Este Rio Acima", estaria com toda a certeza longe de antever a revolução musical e estética que esse seu registo iria causar no universo da música portuguesa. Até então, apenas José Afonso conseguira em 1972 com "Cantigas do Maio" elaborar uma obra tão radicalmente diferente, tão profundamente em ruptura com tudo o que existia e tão prenhe de novos caminhos por trilhar.

Cantor Maldito, é um dos epítetos que se foi colando a Fausto, por muitos considerado “o mais importante compositor vivo” da música popular portuguesa, talvez porque, como poucos, para além da extraordinária criatividade dos seus poemas e da qualidade das suas composições, sempre soube e continua a saber trilhar caminhos poéticos e musicais onde o lado da barricada em que sempre se colocou nunca esteve em questão.

Defensor de causas e de ideologias, subversivo nas ideias e na práxis, foi juntamente com outros cantores e compositores da época como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Luís Cilia, Vitorino ou Tino Flores, um dos símbolos da resistência à dolorosa agonia do Processo Revolucionário no pós 25 de Abril. Apaixonado pela temática dos Descobrimentos Portugueses desde o seu registo de 1979 “Histórias de Viageiros”, prefácio da sua grande obra de 1982 “Por Este Rio Acima” em que a partir das crónicas de Fernão Mendes Pinto, o principal Cronista dos Descobrimentos, traça um retrato da sociedade portuguesa procurando os pontos de confluência entre a época das naus e caravelas e os dias de hoje, Fausto canta sempre o lado do povo anónimo, não o lado dos heróis.

Poeta com um magistral sentido de criatividade, de descoberta e de dimensão contemporânea, compositor e arranjador dono de uma rítmica e de uma musicalidade que lhe permite bolinar igualmente bem em águas ora calmas ora logo em seguida conturbadas, Fausto continua a presentear-nos “por este rio acima” com o que de melhor se escreve e se faz em termos de música popular portuguesa, e esperemos que, para nosso puro deleite, por muitos e bons anos. Entretanto, vale a pena ler e ouvir alguns dos seus mais brilhantes momentos de criatividade.

Divirtam-se.


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