Viagens #14: o Rei dos Cromos da Fotografia


 Viagens Tajana Marrocos Fotografia Digital Humor Francisco Zubarán - Chávena com água e rosa numa bandeja de prata Se calhar devia ter desconfiado logo das coisas que vi na montra do laboratório fotográfico. Anunciavam-se efeitos e composições fantásticos para as fotografias digitais (era o meu caso). E a montra não enganava: havia umas montagens sobre um fundo esfumado azul, com uma fonte no meio e a imagem de um rapaz repetida três vezes de cada lado, meio sobreposta. Havia um retrato de uma rapariga com uma imagem de contorno a fazer de moldura, um cordão de flores cor-de-rosa. Havia elementos que tinham claramente sido acrescentados às fotografias: luares, coraçõezinhos, enfim, todo um teatro de horrores que nem fotográficos eram. Ainda assim, entrei. Levava um CD e um papel onde tinha escrito o nome de cada ficheiro seguido do número de cópias, convencida de que assim não haveria dúvidas. Como o empregado falava francês, expliquei-lhe o esquema. Passou o CD e a folha a uma rapariga que estava sentada ao computador, discutiram durante dois minutos o meu esquema, com um ar perplexo, depois ele apontou para o thumbnail de uma das fotos e perguntou:

- Quantas cópias queres desta?

Uma, respondi, mostrando que a seguir ao nome do ficheiro tinha escrito "1". Ele ficou a olhar para o papel, depois apontou para o segundo thumbnail no ecrã.

- E desta?

- Talvez seja mais fácil - sugeri eu - se disser só aquelas de que quero duas cópias, porque são só duas. De todas as outras quero uma cópia.

Apontei para o papel as duas de que queria duas cópias (as que tinham um "2" a seguir ao nome do ficheiro) e ele ficou a olhar. Senti-me frustrada. Tinha depositado grandes esperanças no meu esquema.

- Importas-te de vir aqui para o pé do computador?

Eu fui.

Começou então a saga. Ele abria cada uma das fotografias, perguntava quantas cópias eram e, surpresa das surpresas, tomava a iniciativa de as recortar ou alterar as cores como lhe parecia melhor. Na primeira fui apanhada de surpresa, mas ainda tive tempo de dizer um sonoro "Pára!" e de lhe explicar, o mais assertivamente que pude, que não queria que ele alterasse os meus enquadramentos; que preferia ter margens brancas no papel a cortar bocados de estrada, cotovelos ou topos de cabeças.

- Mas fica assim?!... - perguntou ele, incrédulo.

- Sim. - disse eu - Em todas, não alteres nada, não cortes nada.

Quanto à cor, eu não tinha tanta certeza, porque tinha feito alguns acertos no meu computador mas, naquele monitor, as coisas pareciam um pouco diferentes. Portanto, deixei-o brincar um bocadinho, mas controladamente, à espera de ver como ficaria na impressão. Sempre que um verde-água começava a ficar fluorescente e ele se preparava para clicar no botão de impressão, eu dizia "Não!". Ainda assim, algumas fotos ficaram assassinadas. Resignei-me, porque não eram para mim.

Ele achou por bem propor mais uns trabalhos de beneficiação:

- Ahnn... queres pôr alguma coisa nas fotos?

No fundo do ecrã havia uma paleta de cordões de florzinhas e efeitos especiais.

- Não, ficam TAL COMO ESTÃO.

- Ahnn... simples...

- Sim, não quero alterar NADA.

Quando começaram a aparecer retratos, voltou ao ataque:

- Queres que escreva o nome?

- Não, ficam TAL COMO ESTÃO. - insisti.

- Ahnnn... simples...

- Sim, SIMPLES.

Houve dois casos em que pensei bater-lhe. Um, era uma fotografia de um rapaz, um retrato. Tinha-o fotografado porque recebia na cara uma luz de fim de dia que lhe ficava muito bem no tom de pele, que era um canela alaranjado, tornado muito intenso com aquela luz. Estava sentado perto da janela e via-se a parede da sala, que ficava de um outro tom alaranjado, e tudo aquilo contrastava bem com a camisola azul. Garanto-vos que a descrição é muito melhor que a fotografia em si, mas, seja como for, eu gostava dela por isto. E pergunta o homem das cores:

- Porque é que ele ficou com a cara desta cor?

Respirei fundo.

- Por causa da luz que entrava pela janela.

- Hmmm... mas olha, devia ser a máquina também que estava mal regulada.

(Entretanto, eu já tinha visto que a imagem do desktop era uma rosa desenhada electronicamente, daqueles desenhos que ficam todos contentes por parecerem verdadeiros, com uma gota de água a cair de uma pétala e um efeito nublado no fundo).

Mas o horror continuou: o rapaz começou a ajeitar o enquadramento do retrato, e depois cortou o terço da imagem em que se via a parede, de maneira a que aparecesse apenas o modelo, com a cabeça muito bem centrada, como uma fotografia de passe.

- Não, não! - disse eu, tentando parecer genuinamente horrorizada - deixa como estava!

- Assim?!?! - disse ele, igualmente horrorizado - bom, ok...

A outra tentativa que me deu arrepios deu-se com uma fotografia de uma mãe com a bebé ao colo. Mais uma vez, ao pé da janela, mas desta vez o fundo era quase negro, e a luz era branca e fazia umas sombras acentuadas nas caras, iluminadas só de um lado, e nas pregas da túnica e do lenço que ela tinha na cabeça. A mulher e as pregas do tecido sombreadas - tudo aquilo tinha qualquer coisa de madonna, de pintura barroca, que me agradava (mais uma vez: não se deixem enganar pela descrição, é uma fotografia medíocre).

Eis senão quando ele começa a clarear toda a imagem, até a mulher ficar com uma tez meio acinzentada e a roupa branca da bebé parecer uma lâmpada de halogéneo. Voltei ao meu "NÃO!" de terror, ele voltou a suspirar de frustração. Se lhe passassem um quadro de Zurbarán para as mãos, ia de certeza cobrir os fundos negros com papel de parede às flores.

No fim, estávamos os dois muito cansados. E quando ele agradeceu e me disse adeus, parecia-me ouvir um rig-rig de risinho condescendente por entre os dentes.


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