Equação - Herberto Helder


 Arte Literatura Herberto Helder Equacao Avo Ciência e caridade - Picasso, 1897

"Através do amarelo antigo e da sua psicológica tradução em tempo – um sentimento, uma noção doce e alarmante – a Velha Avó, nas circunstâncias um corpo jovem subtilmente inclinado para a frente, atento à própria força, a Velha Avó jovem sai das esquadrias que a delimitaram, e irrompe para além desse Verão exaltado. Bate-me em cheio. Bate em mim, junto à cama, em mim que assisto a um tempo bem actual, à fluente e temível demonstração do corpo que continuou o movimento. Para diante, para diante. Rompendo as ficções do estatismo, o mito incomportável das fotografias.

– Avó...

Ela está na cama de madeira escura, uma avó que enche um minúsculo volume de colcha branca lavrada; e do pescoço para cima, uma avó cor de limão, cor de azeitona. Uma avó de dois braços pela colcha branca abaixo, e as mãos saindo das mangas claras e amarrotadas do casaco de lã. Mãos cor de azeitona, duras, imóveis. Vamos: podres. Duas mãos podres. E tudo isto – que é o pouco do presente, com um significado de súbito espantoso na minha própria carne – está no meio da penumbra do quarto, enquanto lá fora o mês quente se desenvolve, atormentado por uma excessiva firmeza vital, mês feroz, com a sua atmosfera de violência luminosa. É fascinante para mim poder dar alguns passos entre a fotografia (sobre a cómoda) e a enorme cama negra – eu que compreendo alguma coisa (e com que abalo!), procurando sorrir quando a Velha Avó ergue as pálpebras e me fixa não sei entre que hesitações de torpor e vigilância. Sorriso sem experiência, o meu. Porque não sei como está aqui essa fotografia e este corpo. E não sei do mesmo modo quase nada acerca do corpo das pessoas, o seu tempo, os tempos, a verdade. E depois, como se o sorriso com a sua inépcia não fosse bastante sinal da minha confusão, eu digo numa voz ainda mais inexperiente:

– Avó... (...)

A Avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A Avó diz:

– É tudo mentira...

Depois as pálpebras descem e o corpo é absorvido pelo enigma. As paredes alteiam-se, o retrato recua, a minha juventude fica sem armas – fulgurante e estúpida.

Assim é porventura a sabedoria: vil, esmagadora. O único tempo que lhe pertence deve ser a idade mas quando dela se aproxima um jovem fascinado que a si mesmo impôs a condição de mensageiro, como se quisesse tocar no gelo, convencido – ele! – de que o calor dos poucos anos poderá fundir o gelo, então o gelo agarra a idiota mão quente, e queima-a.

A Avó morreu nesse mesmo dia."


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