Viagens #15: o assédio (parte 1)


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É a cruz de muita gente que visita Marrocos, mas mais ainda quando somos uma combinação de mulher-europeia-sozinha. O meu guia de viagem dedica alguns parágrafos a esse tema - não ajudam, mas confirmam. Embora a maneira de encarar o assédio tenha sempre por base a sensação 'que chatos do caraças!', há depois outros sentimentos em paralelo. E há vários tipos de assédio.

Há o assédio comercial. Nas cidades turísticas, como Marraquexe ou Essaouira, é coisa para deixar os nervos em franja. Basta espreitarmos qualquer loja pelo canto do olho, e de imediato aparece o dono, a insistir, a perguntar se queremos ver outras cores (nem sei bem de quê, às vezes, porque olhei para a loja só porque estava no meio do caminho).

Os mais afoitos agarram-nos pelo braço. A sequência 'Bonjour! Française? Italienne? Espagnole?' é o pão nosso, não de cada dia, mas de cada 5 minutos. Raramente entro numa loja onde tentam chamar-me, mas esta técnica deve funcionar, ou já teriam desistido dela. Com o tempo, descobrem-se alguns truques: se formos ao souk à hora da sesta, muitos dos vendedores estão a dormir e não dão pela nossa passagem. Podemos mesmo gozar o luxo de parar alguns instantes e olhar as coisas calmamente. No entanto, no Verão a hora da sesta é demasiado quente para sair nestas excursões. Uma das imagens que guardo com mais carinho é a de um vendedor do souk de Marraquexe que, tendo adormecido, tinha caído e dormia com a cabeça enfiada num cesto cheio de soutiens rendados e coloridos.

Com o tempo, aprende-se também a ignorar. Não só finjo que não ouço, como acho que de facto deixei de ouvir. Ou então sigo caminho a repetir baixinho os 'bonjour', entre dentes, em tom de quem goza com eles (e gozo, para aguentar a pressão).

Uma amiga minha tem uma técnica que ainda não usei, como resposta à pergunta sobre a nacionalidade: dizermos que somos açorianos. 'Ah... mas que língua se fala no teu pais?', perguntam de seguida, enquanto tentam lembrar-se do mapa-mundo que tinham na escola, ou, melhor ainda, se conhecem algum jogador de futebol dos Açores cujo nome possam invocar para continuar a conversa. Nos Açores fala-se açoriano, respondemos com sotaque. É uma ilha no meio do oceano Atlântico. Isto deve deixá-los suficientemente intrigados para não insistirem neste tema. Mas deve funcionar melhor se estivermos com alguém, porque podemos mesmo conversar em açoriano e tornar a coisa mais realista. No meu caso, tenho a sorte de cada vez mais pessoas, nas cidades, me tomarem por marroquina. Isso reduz o assédio comercial.

A abordagem comercial mais original que tive foi em Essaouira. O vendedor tentou convencer-me a entrar na loja, não para comprar o que quer que fosse, dizia, mas porque tinha a certeza de que a minha perna, estando dentro da loja dele, ia dar-lhe sorte. (Era a perna esquerda, e não entrou). Há uns que usam uma técnica refinada: vêm direitos a nós de mão estendida, com um grande sorriso e um grande 'bonjour!'; e se não correspondemos, claro, somos no mínimo mal educados. O melhor é não entrar em stress, e ser simpático mas firme nos 'não quero ver nada, obrigada'. Dizer que é o último dia de viagem e já gastámos todo o dinheiro também é bom.

Escusado será dizer que falar de Portugal implica ouvir em resposta 'Figo!' O Cristiano Ronaldo ainda não chegou lá; até o Deco é mais conhecido. A única surpresa que tive até agora veio de um rapaz que, em vez de Figo, disse Vasco da Gama. Fiz-lhe a distinção genuína de ter sido o primeiro a não dizer 'Figo!', e ele admitiu, encolhendo os ombros, que não gostava de futebol.


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