Viagens #15: o assédio (parte 2)


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Depois, há o assédio dos gajos. Os gajos são uns chatos. Desde logo, são muitos: cerca de 50% da população marroquina tem menos de 30 anos. Depois, diz o meu guia, o facto de terem pouco contacto com mulheres antes do casamento, e de acharem que as europeias são mais acessíveis, desperta a melga que há neles. Pergunto-me o que quer dizer para eles, em concreto, ser 'acessível'. Não é preciso ser-se nenhuma beleza, atenção. Passam por nós na rua, às vezes putos de 17 ou 18 anos, e lá vem o 'Bonjour, la gazelle!', ou qualquer coisa resmoneada entre dentes (às vezes tenho alucinações e acho que ouço os dentes deles a bater uns nos outros, felizes) ou a adivinhação da nacionalidade, ou seja o que for.

Se respondemos, começa a parte do 'Estás sozinha? Ficas até quando?'. Digo sempre que estou sozinha, mas que a minha família chega nessa noite, ou na manhã seguinte. Cheguei a usar uma aliança dourada muito manhosa, mas não notei qualquer melhoria e desisti. Se a conversa dura mais de cinco minutos, pedem o e-mail - e alguns até o telefone, que não dou. Geralmente há uma parte da conversa em que somos muito bonitas.

Muitas vezes pergunto-me se alguma vez eles conseguirão alguma coisa com estas investidas. Concluí que, mesmo que não consigam, estas abordagens para eles são, em si, um prazer, como estar sentado ao fim do dia a atirar pedras só pelo gosto de treinar a pontaria, mesmo que não se cace nenhum passarinho. Há dois dias, num restaurante no vale de Ourika, à beira-rio, o empregado falou comigo cheio de delicadezas e segredou-me que me ia fazer um desconto no preço da refeição 'parce-que vous êtes une très jolie fille'. Tentei que o meu sorriso não tivesse um ar muito enjoado, para aproveitar a promoção. Ao longo do almoço, de vez em quando dava por ele com um sorriso palerma de Cheshire Cat a olhar para mim. Um caso clássico de quem quer apenas gozar o prazer da pontaria. Provavelmente até acha que está a provar que os homens europeus não percebem nada do assunto. Um orgulho nacional.

Bom, depois há as histórias dos raptos. Nunca, aqui, senti esse tipo de receio, excepto um dia em que entrei em paranóia - e sem motivo. Infelizmente, aqueles poucos que genuinamente querem apenas ser simpáticos acabam por receber em troca a desconfiança criada por todos os outros. De vez em quando surgem oportunidades de conversar, de beber um chá ou um sumo tranquilamente, de aproveitar a simpatia e a generosidade das pessoas, e há que ter cuidado para não as desperdiçar só porque estamos sempre na defensiva. Ou então, a viagem não tem sentido. O difícil é ver a diferença de intenções. Toda a gente conhece alguém que conhece alguém cuja mulher foi raptada, menos eu. Imagino que haja malfeitores, mas nunca me cruzei com eles. Apesar do desporto nacional do assédio, e de serem, pelos nossos padrões, muito atrevidos, são homens geralmente respeitadores, e basta darmos a entender firmemente que não queremos ser perturbadas para nos deixarem. Não usar calções curtos, nem mini-saias, nem blusinhas de alças ou roupa transparente também ajuda (para além de mostrar algum respeito simpático pelos costumes locais).

Claro que há dias em que atinjo o limite. A cada 'Ssss!' que ouço ao passar, não digo nada, mas penso muito alto 'Ssss! o quê, oh palhaço?' Uma outra técnica que funciona é, se toparmos previamente que anda alguém a rondar, fingirmos que estamos ao telefone ou entrarmos numa loja até a criatura desistir. Se optarmos pelo telefone, podemos inclusivamente aproveitar para lhe chamarmos nomes sem que saiba.

Acaba por ser uma sorte que os homens marroquinos não sejam bonitos, tirando algumas gloriosas excepções. Bom, estão ainda assim alguns degraus acima dos aborígenes da Austrália ou dos hooligans-pele-de-lula, mas dificilmente ficamos com pena de deixarmos de os ver, quando conseguimos que se vão embora. E alguns têm uma grande conversa, uma daquelas conversas macias e envolventes de que temos de estar sempre a desviar-nos.

Se isso acontecer - se algum dia tivermos uma sensação ligeira de 'que pena, foi-se embora, até era simpático...', podemos sempre fazer um 'reality check' e recordar que eles têm bigode. Eles têm bigode. Eles têm bigode.

Não todos, claro.


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