Viagens #16: era uma casa



 Viagens Tajana Marrocos Casas Habitacao Arquitectura Arquitetura Terra Tijolo El Jadida (antiga Marzagão)

As casas são feitas de terra e forradas com lã. Terra amassada com palha, com pedras - terra da cor da terra. Na maioria têm dois pisos: no de cima vivem as pessoas, fica o terraço; no de baixo, o pátio dos animais, o estábulo, as divisões onde se guarda a luzerna para o inverno e tudo o que é do trabalho da terra e do gado. As de baixo são divisões escuras, onde temos de habituar os olhos até distinguirmos os cantos, a palha no chão, onde tudo começa pelo nariz e a primeira coisa vista pode ser o brilho de um olho de vaca.

 Viagens Tajana Marrocos Casas Habitacao Arquitectura Arquitetura Terra Tijolo

Entramos na casa. Por vezes, o chão da entrada é de terra batida. Há alguns quartos - quartos ou salas, ou ambas as coisas consoante a hora do dia - geralmente divisões compridas, com uma ou mais janelas de grades de um desenho miudinho que fazem um bordado de sombra no peitoril. Paredes largas, como as nossas casas de antes. O peitoril, ali, existe mesmo, é um espaço da sala onde podemos pousar objectos, uma toalha, de onde se espreita a rua. Onde se põe o telemóvel para conseguir ter rede. As grades das janelas escondem quem espreita de dentro. Várias vezes, a lavar roupa no rio, tenho pensado quantos pares de olhos estarão a observar-me, a ver como lavo eu a roupa, quem sou eu - a estrangeira - por trás daquelas grades. Não vejo ninguém, mas de repente ouço vozes, uma mulher que chama "Fatima!", ou "Nayma!", ou qualquer outro nome.

As casas têm quase nada; são como ninhos forrados com lã. Tapetes, cobertores empilhados a um canto, almofadas, peles de ovelha. Por vezes, é esta toda a mobília que se vê, e com tão pouco se conseguem divisões confortáveis, acolhedoras, tranquilas. As salas alongadas, com tapetes espessos feitos pelas mulheres da família, segundo os padrões tradicionais; em alguns uma cor acabou-se antes de terminar o trabalho - o vermelho, por exemplo. E há uma faixa numa das pontas que de súbito passa a ser cor-de-laranja, ou cor de vinho. Entretenho-me a encontrar estes remendos descomplexados, durante as longas horas que passo à espera do almoço para que me convidaram, ou dum chá, enquanto na televisão passam programas incompreensíveis.

 Viagens Tajana Marrocos Casas Habitacao Arquitectura Arquitetura Terra Tijolo

Numa das minhas casas preferidas, e das que visito mais, o tecto é ainda de canas misturadas com erva e terra, mas as paredes já são rebocadas com cimento, à espera de uma pintura. De um lado, um pequeno móvel de apoio com a televisão, o mini hi-fi e um cesto com os DVDs. É tudo. O resto são os tapetes sobre a esteira de plástico entrançado, duas ou três almofadas duras, de lã, e os cobertores. Em algumas salas, há um armário para louça, bacias e outras coisas. Sentamo-nos sobre o tapete, descalços, encostados à parede ou a uma almofada ou cobertor dobrado. À hora da refeição entra a pequena mesa redonda, entra a tajine ou a tigela do cuscus, um copo de água, a bacia e a chaleira das mãos. E tudo sai com a mesma ligeireza com que entrou, e a sala é de novo tapetes, cobertores e almofadas.

Há uma sala que é para as visitas. Por vezes é a única que levou reboco, e algumas têm mesmo um tecto com relevos em estuque ou desenhos geométricos coloridos, ou paisagens pintadas sobre a parede, em rectângulos como se fossem quadros. É raro entrar lá - não sou uma visita a sério. Conheço casas que visitei semanas a fio sem imaginar que houvesse esta divisão - até que um dia sou levada até lá por qualquer motivo, e descubro assim a sala mais cuidada da casa, imaculada, com os melhores tapetes ou os tecidos mais floridos.

As salas podem ter, ao longo das paredes, uma fileira de colchões de espuma forrados de tecidos grossos, com florões de cores pesadas. Várias vezes dormi nestas salas, quando convidada para jantar. Estendo-me no colchão, ou sobre tapetes dobrados no chão, puxo um cobertor e estou na cama. Nada de lençóis, nada de mais nada. De manhã acordo, dobro os cobertores, coloco-os sobre a pilha e o quarto é de novo uma sala. Entra a mesa baixa e redonda, os bons dias, o chá, o pão e o azeite.

 Viagens Tajana Marrocos Casas Habitacao Arquitectura Arquitetura Terra Tijolo

Onde guardam a roupa?, perguntei-me muitas vezes. Entrei em dois ou três quartos. Num deles havia uma mala de viagem velha e um grande pano pendurado, formando uma bolsa onde se amontoavam peças de vestuário. Nos outros, não percebi. Mas tem de estar em algum sítio. Alguns quartos têm camas, outros colchões no chão. Quase todos os dias vejo no rio mulheres a lavar cobertores, tapetes e peles de ovelha, trabalho de várias horas que raramente fazem sozinhas. Não sei como suportam o peso dos cobertores e tapetes encharcados, como não os deixam fugir na corrente.

Depois há a cozinha - negra, com as paredes cobertas pelo fumo de anos e anos. Um pequeno fogão a lenha, a botija do gás e um queimador, algumas prateleiras com quase nenhuma louça, a cuscuseira, a tigela de amassar o pão e preparar o cuscus, o pão-de-açúcar e a caixa do chá; a peneira e mais um ou outro utensílio pendurados na parede. Na maioria das casas já há televisão, mas poucas têm frigorífico. Nunca sou convidada a ir à cozinha, e é onde mais gosto de entrar. Com as paredes negras, parece uma caverna, chega a ser assustadora, mas há o calor do fogão, há o fogo. Gosto de ver as mulheres prepararem o pão, a tajine e o cuscus - sobretudo o cuscus, um trabalho delicado de mãos, de acariciar e amaciar o grão.

Está tão fresco nestas casas que mesmo a lã parece crua e fresca.

Há tão pouca coisa. Sinto que a qualquer momento, entre uma noite e a manhã, uma família pode dobrar os tapetes, os cobertores, guardar panelas, copos e tigelas num saco e ir-se embora, deixando atrás de si uma casa vazia como uma casca de ovo, com a terra pronta a desfazer-se sobre o chão.

 Viagens Tajana Marrocos Casas Habitacao Arquitectura Arquitetura Terra Tijolo

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
v3/s
 
Site Meter