Viagens #17: Marraquexe, 45 graus



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Três gotas de chuva, não mais. Caíram do céu cinzento e fechado que cobre a cidade numa hibernação de estio. Hoje são 45 graus; ontem, diz-me um taxista, foram 48. Outro diz que são 42. Seja qual for a temperatura exacta, em Julho e Agosto Marraquexe é uma armadilha de calor, sem um riacho, um lago, uma fonte. Estou em casa de amigos no bairro de Daudiat, um bairro de classe média e gente remediada, cheio de prédios baixos e de pessoas que fazem a sua vida. A casa fica numa esquina de onde se pode ver tudo, como um maestro vê a orquestra: para um lado, o cinema Rif com os cartazes de filmes americanos e indianos (um de cada por sessão), os cafés, bancas de comida e tascas na pequena praça, as tábuas e mesas da carpintaria do rés-do-chão; do outro lado, dando para a rua principal, a loja de tecidos, a frutaria, a mercearia, o talho, a lavandaria e dois pequenos restaurantes com as tajines alinhadas sobre o balcão, em cima do passeio. Há sempre alguns homens sentados nas mesas dos restaurantes, cá fora. Mesmo agora, que são três da tarde e ainda as ruas estão folgadas. Passam bicicletas, burros a puxar carretas carregadas, rapazes a puxar as bancadas onde vendem os figos de piteira, mulheres e crianças, motoretas. Tudo passa, ali, apesar do calor e do algodão cinzento do céu que não deixa coar o ar fresco que deve existir algures muito lá em cima, para lá das nuvens. Três gotas caíram umas horas antes, quando eu passava perto da medina. Três, para mim; não sei se o racionamento foi o mesmo para todos os habitantes.

E no entanto, no centro, na praça Jemna el Fna, as hordas de turistas continuam como sempre. Passam afogueados, a garrafa de água numa mão e a máquina fotográfica na outra, calções curtos e t-shirt ou camisola de alças - a farda é inconfundível. São quase todos de pele muito clara, mas bastaram-lhes alguns dias no Sul para ficarem vermelhos, escaldados. E nada disso os demove de andarem pelas ruas, os ombros e braços cor de carne viva a apanharem ainda e mais a luz do sol. Na esplanada do Museu de Marraquexe, um casal - ele ruivo, ela loura - pergunta à empregada se aquela temperatura é muito elevada, pelos standards de um habitante local. "Está quente, sim. Mas é o calor normal nesta altura". Os turistas vão assentindo com a cabeça. "E para vocês?", pergunta a empregada. "Para nós está MUUUITO quente" - responde o homem, muito corado, "sabe... somos da Suécia". Eu vim ao museu na esperança de que houvesse alguma sala de exposição com ar condicionado. Saiu-me o plano falhado, e pergunto-me o que leva um casal de suecos a vir para Marraquexe no pino do Verão. Por mim, só quero fugir, mas tenho de ficar mais um dia. Estou numa ponta da praça e páro breves segundos a ganhar coragem para atravessá-la debaixo daquele sol.

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De volta a Daudiat. O ar, dentro de casa, está quente. Desta vez não havia nenhuma barata morta nas escadas do prédio. Também o calor as deve deixar demasiado cansadas para saírem. Sento-me no colchão a ler. Se me deito, o cobertor faz ainda mais calor. Tento encostar-me à parede, na esperança de algo que me lembre o frio das pedras: mas é de tijolos finos, nada a ver com as casas de terra batida nas montanhas, e está mais quente que o meu corpo, e vai libertando esse calor de dia e de noite, como um aquecedor. Sinto toda a pele em movimento, como se à superfície houvesse uma película de milhões de gotículas agitadas, a acotovelarem-se. Não tenho força, não tenho vontade: calor, calor, calor. Ao fim da tarde, decido tomar um duche. Abro a torneira e cai-me na mão uma água espessa como azeite quente. Faço a segunda saída da tarde, mais uma vez para comprar uma garrafa de água fria na loja lá de baixo. São 30 metros, e os sapatos parecem ficar colados ao chão. O milagre dos frigoríficos! Como seria antes?, penso. Como seria viver dias e semanas dentro daquele saco fechado que é Marraquexe no Verão, sem ao menos um frigorífico com águas, coca-colas, fantas? Três gotas de água, não mais. Volto para casa, faço rolar a garrafa de água pelo corpo, pelo pescoço.

Logo à noite vai estar melhor, é a minha esperança. À noite acaba-se o sol, e deve haver, como no princípio de Junho, qualquer brisa ligeira a tornar a noite apetecível como uma cama fresca ao ar livre. Não temos fome e saímos. São oito horas; nas ruas começa já a montar-se o mercado de todos os dias. É a hora a que toda a gente sai. Sapatos, roupas, frutas, louça, legumes, telemóveis, brinquedos enchem os passeios, obrigando-nos a caminhar devagar entre as pessoas. São famílias inteiras que avançam devagar, mulheres sentadas nos passeios a ver os filhos brincar, rapazes encostados às paredes a conversar e a olhar as raparigas. Quando acabei de descer as escadas e dei o primeiro passo na rua, tive um pequenino instante de esperança: havia vento! Mas foi só senti-lo tocar-me para o ar me faltar de novo. O vento chegava ao corpo em golfadas secas e quentes, exactamente a mesma temperatura que tudo o resto, como se fosse apenas o ar da cidade a passear e a mudar de sítio, como as pessoas. Um caldo de ar mole e pesado. Vem de sudeste.

Sentamo-nos numa esplanada a beber um sumo de laranja e a sentir os breves minutos do milagre do gelo, do frio do copo. No regresso, comemos figos de piteira; o vendedor tem-nos dentro de baldes com água fria, e estão frescos, e sentimo-nos aliviados só de ver a água que lhe escorre das mãos e da faca com que retira a pele, num gesto preciso de cirurgião. Quando voltamos a casa, agarramo-nos a mais uma garrafa de água gelada, a última do dia, que dorme ao nosso lado, estrategicamente colocada de forma a apanhar o ar da ventoinha. Lá fora é o barulho das pessoas que saem do cinema e que vão beber alguma coisa, e partem a acelerar nas motoretas. Não consigo imaginar o calor que deve estar dentro da sala de cinema. Fico a ver as gotas que vão escorrendo da garrafa. São mais que as que caíram do céu da cidade.

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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