Viagens #18: acerca do número 3



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Tudo começou, sem grandes surpresas, com uma discussão de preços. O nosso barqueiro - viemos mais tarde a saber que se chamava Mohamed, "Mohamed de Oualidia", o que equivale mais ou menos a "O Zé da Ericeira" - propôs-nos um almoço na praia no final do passeio de barco pela laguna. Oualidia era há não muitos anos apenas uma pequena aldeia equilibrada sobre o fio das dunas que separam a laguna da terra. Agora, pela encosta abaixo acotovelam-se hotéis e aldeamentos, quase até à praia de água muito azul e calma, um areal recatado que um cordão de rochas escuras separa do mar batido. A laguna, em forma de crescente alongado, é conhecida pela criação de ostras, ditas as melhores do país.

As ostras eram parte do menu que o Mohamed nos propunha, com um grande sorriso e um olhar directo e aparentemente desarmado. Nós, cansados de passar já metade do tempo do passeio a discutir preços, apresentámos a nossa oferta final, mais baixa que a proposta dele, mas com um menu mais modesto do que aquele que ele sugerira. Ele riu-se e abanou a cabeça, como se estivéssemos a tentar enganá-lo. Ao fim de algum tempo, encostou o barco e disse que ia buscar as ostras. Escaldados como estávamos de uma discussão com um taxista no dia anterior - sobre um preço que não era o combinado no início da viagem - tínhamos decidido nunca mais acertar preços, serviços ou o que fosse sem escrever claramente num papel os valores e fazer o taxista, ou barqueiro, ou quem fosse, ler e dar o seu assentimento.

Eu pedi-lhe que esperasse um minuto e escrevi: "Huitres: 24; Sardines: 15; Araignées: 3; Pain: 3", seguido do preço. As araignées eram, vimos mais tarde, ao almoço, um crustáceo semelhante a uma santola. Este, pensámos, era um esquema infalível. Com aquele papel, não havia possibilidade de sermos enganados. O Mohamed olhou o papel, fez um ar sério e entendido, deu o seu acordo verbal e foi buscar as ostras. Levou-nos depois para a praia, instalou-nos debaixo de um chapéu de sol e entregou o peixe aos grelhadores (24 ostras, 15 sardinhas, e mais três pães), que preparavam o carvão. Foi então que o vi com o crustáceo, a araignée, na mão.

Uma araignée. Não três.

Não me apetecia mais discussões, mas não podia deixar passar um desplante daqueles. Fui ter com ele, que me recebeu mais uma vez com o seu enorme sorriso e uns olhos quase meigos.

- Faltam duas araignées. Ele olhou-me com ar baralhado e abanou a cabeça. - Não, não. É uma. Segura dos meus meios e tentando não me irritar, mostrei-lhe o papel. - Repara, não foi isso que combinámos. Está aqui escrito e tu leste e concordaste: " Araignées: 3" O Mohamed fez um ar quase ofendido e apontou para o papel, dizendo num tom grave: - Não, não. A araignée é uma. Mas é para vocês os três - vocês é que são três... E apontava-nos, contando-nos com ar convicto.

Epílogo: o Mohamed ganhou. Não conseguimos bater a sua aritmética criativa com a nossa lógica (de que as 24 ostras e as 15 sardinhas não éramos nós, e de que se os pães eram 3, pela sua contabilidade devia ter trazido apenas um). Ainda assim, dissemos-lhe que percebemos bem que fomos enganados, mas como não íamos conseguir comer três araignées não íamos sequer continuar a discussão. As ostras, as sardinhas e a araignée souberam maravilhosamente, ali na praia, entre os banhistas flutuantes. O Mohamed sorriu-nos candidamente até ao fim. Um bonito sorriso. Guardo o papel como recordação e inspiração para momentos de apuro.

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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