Viagens #19: perto do chão


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Tudo aqui se passa mais perto do chão. (Quem diz do chão, diz do fogo - e não creio que seja coincidência.) Sentamo-nos no chão para conversar e para comer - uma perna dobrada à frente do tronco, a outra de lado, assente no chão e meio cruzada por baixo da primeira. O pão é amassado numa tigela larga de madeira assente sobre um pano, no chão. Dorme-se em cima de tapetes e cobertores dobrados no chão; por vezes em colchões baixos, mas raramente em camas. As mulheres sentam-se em banquinhos baixos a descascar batatas, cenouras e cebolas para fazer o jantar - os alguidares pousados no chão, as crianças a brincar na terra. À beira da estrada, homens e mulheres sentam-se nas pedras mais largas e lisas, à sombra, a ver quem passa, a conversar, a tomar chá, à espera de um táxi. No mercado, os legumes estão amontoados sobre plásticos estendidos no chão. Nos campos, pára-se a descansar sobre a erva, sobre a terra, sobre o chão.

À beira do rio ou dos canais, as raparigas lavam a roupa de cócoras, roupa de vestir e cobertores que batem com grandes maços de madeira depois de os pisarem num alguidar de água com Tide. Mesmo às mais velhas a idade não as impede de se baixarem com a agilidade de um movimento natural ao corpo. Ainda são elas que vão ao sítio onde as coisas estão, em vez do inverso; ainda se dobram, ainda se mexem para chegar ao fogo, à erva que cortam para os animais, às nascentes de água, à comida sobre a mesa baixa, ainda se inclinam para varrer o chão com as vassouras curtas feitas de plantas secas, por vezes com os bebés às costas, presos com um pano largo. Têm uma elasticidade de ancas e pernas invejável, imagino que por causa dessa posição de cócoras que as obriga a abrirem muito as pernas, os joelhos quase a tocar os ombros, e a inclinarem-se para a frente, e que lhes deve ser útil nos partos.

Nas cidades que aqui conheço - incluindo grandes cidades como Marraquexe e Fez, mas sobretudo nas pequenas cidades como Azilal - é também assim. Ao fim do dia, as portas abrem-se e as famílias saem para a rua à procura do ar da noite; é a grande festa da frescura, de uma eventual brisa, é a ocupação real do território pelo povo. Bermas dos passeios, caldeiras de árvores, muros baixos, jardins relvados, pequenas faixas de verde no meio das avenidas - tudo se enche de gente sentada no chão, e das conversas e dos risos e de uma ou outra voz zangada. Ouve-se música, vinda de algum lugar que não vemos. É um mar de gente que não percebemos de onde vem, como pode caber nas poucas casas que dão para a rua. É uma das diferenças mais flagrantes relativamente às cidades europeias, que se esvaziam ao pôr-do-sol.

Quando eu era pequena, na aldeia da minha avó as coisas passavam-se quase assim (e vi o mesmo em Cabo Verde). Os bancos de palhinha e os poiais à saída das casas eram baixos; as mulheres viviam agachadas na cozinha, na rua, e quando costuravam ou faziam o queijo. O progresso afastou toda esta gente do chão e da poeira; pô-los à altura do móvel da televisão, da mesa da sala e do fogão de cozinha, fê-los atravessar o país em cima de viadutos. Deu-lhes o conforto de quem já não precisa da terra e não conhece o chão que pisa.


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