À conversa com... Joao Pedro Gonçalves


 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aat Munnar, Índia - João Pedro Gonçalves

Desde muito cedo que a proximidade com outras culturas lhe despertou uma paixão pela imagem, quer na componente estética quer na componente humana. Tal como muitos outros fotógrafos, o seu percurso de vida em nada teve a ver com esta arte e tão pouco é a sua actual ocupação, no entanto, a fotografia mudou definitivamente a forma como ele observa e entende o mundo. Conheça um pouco mais o olhar de João Pedro Gonçalves.

João Pedro, a sua formação base não é fotografia. Pode fazer um breve resumo do seu percurso até aos dias de hoje?

Não tenho formação em fotografia, mas tenho na área das ciências sociais, que acho que moldou o que procuro na fotografia e a curiosidade que tenho pelas diversas culturas. Venho do Algarve, a sul de Portugal, que por ser uma zona turística deu-me desde cedo contacto com outras culturas. Aqui estavam aquelas pessoas todas a virem de longe para visitar a minha terra. Pensava logo em retribuir a cortesia, visitando as suas :)

Estudei Comunicação Social e posteriormente Ciência Política no ISCSP em Lisboa. Durante os tempos de Universidade tive diversos amigos envolvidos na fotografia, a organizarem eventos e exposições. Sempre acompanhei o trabalho destes meus amigos, ganhei o gosto por observar fotografia, mas o "bicho" de fotografar só mordeu mais tarde, quando fui viver para o Brasil. Em São Paulo, onde trabalhei no ZIP.net durante sete meses, senti a necessidade de enviar recordações para casa, pelo que comprei uma máquina fotográfica digital pequena e comecei a fazer as primeiras fotografias.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aac.Sized Malecon, Havana

O que o levou a olhar para a fotografia com mais seriedade?

Em 2002, já de regresso a Portugal, viajei pela Europa e tive oportunidade de visitar Auschwitz. Com a minha pequena Cybershot fiz algumas fotos que resultaram numa exposição em Loulé e Faro - Portugal. Convidaram-me para um debate com alunos e fiquei abismado ao perceber que praticamente nenhum deles - excepto uma menina que havia lido o "Diário de Anne Frank" - sabia o que era um Campo de Concentração.

Percebi então a necessidade de documentar e comunicar a nossa História, na fotografia enquanto janela para o nosso mundo, ao oposto da fotografia enquanto espelho de quem somos. As conversas com fotógrafos amigos como o João Carvalho Pina da Kameraphoto também moldou muito a minha forma de ver. Mas associo muito a fotografia ao viajar.

Quando fotografa imagens como as que possui da Índia ou Cuba, o que pretende capturar?

Pretendo acima de tudo capturar o que está à minha frente, não encenar situações e seguir ao máximo o espírito do fotojornalismo. Apesar de não ser fotojornalista gosto de reportar as minhas viagens como uma história. O meu ideal é quando um cubano ou um indiano depois de ver as minhas fotos me diz: João, tu percebeste o que é a minha terra.

Tal como disse, vejo a fotografia como uma janela e não como um espelho. Se quem fotografo se revê nas minhas fotos, então é porque consegui captar a sua realidade e não a minha.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aab Greenwich Meadows, Jamaica

Há alguma relação humana ou sentimental entre o fotógrafo e os objectos? em que medida?

Quando fotografamos há sempre aquele momento especial, achamos que vai ser uma fotografia fantástica, uma senhora que fez um sorriso maravilhoso, mas na altura não notamos que por detrás está um poste ou que na fotografia cortámos alguém ou ainda que existe um elemento que distrai o olhar.

O processo de edição aí é muito importante, tiro bastantes fotogramas de cada cena - especialmente naquelas em que me sinto mais envolvido - para depois poder friamente escolher qual a que mais gosto. Deixo sempre passar algum tempo entre fotografar e editar precisamente para que as emoções "esfriem" e assim possa escolher a foto que de facto vai causar mais impacto, que melhor vai transmitir aos outros aquele momento, apesar de não ser a foto com que mais me identifico ou que represente algum momento mais especial.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aae Shibuya, Tóquio

Como encara as novas tecnologias numa disciplina como a fotografia?

A fotografia tem cerca de cento e oitenta anos. Não acho que se possa chamar de "disciplina tradicional", pelo menos quando comparada com a pintura, a caligrafia ou a escrita, artes que têm milhares de anos. É uma evolução tecnológica que no meu caso me permite fotografar muito - um cartão de memória hoje em dia leva centenas de fotogramas.

Garry Winogrand ficou conhecido pela quantidade de rolos que nunca revelou. Hoje em dia todos nós fotografamos muito mais, o que melhora o processo de edição, e logo, o trabalho final. Permite-me ter vários fotogramas por onde escolher, sem um custo elevado em químicos.

Há limites para o seu uso? Na sua opinião, quais são esses limites? Já os ultrapassou?

Sem filme e sem emulsões, o trabalho de laboratório passa a ser feito na edição de imagem, que é bastante mais flexível. Acho que depende muito do que se pretende fazer. Caso se esteja a documentar a realidade, deve-se seguir as regras do fotojornalismo e limitar a edição à melhoria estética da imagem, trabalhar o contraste, balanceamento, saturação.

Caso se pretenda algo pelo seu puro valor estético, não vejo qualquer problema. É um bocado como contar uma história que se passou connosco e acrescentar uns quantos elementos para a tornar mais interessante. Deixou de ser realidade, mas há quem goste. No meu caso, como pretendo documentar o que vejo, evito ao máximo adulterar.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aad Lexington Avenue, New York

Uma imagem para si conta uma história? Mostre-nos a sua melhor história.

Em 2003 quando fui a Havana pela primeira vez, andava a passear pelo centro histórico, entro num largo que era estranhamente silencioso para Havana. Deparo-me com uma situação que achei altamente fotogénica, resumia muito a imagem que tinha da cidade - um velhote sentado numas escadas, uma criança a brincar, curiosa pela minha presença, um carro dos anos 50 com os pneus vazios e um galo - em Cuba são comuns as lutas de galos. Estive algum tempo a compôr e fiz vários fotogramas, passou uma criança que acrescentou algo mais à fotografia. Fiquei a saber que o galo era do seu neto e que era apenas de estimação, não iria sofrer na violência da luta.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Aam Havana, Cuba

Já de regresso, gostei do resultado e coloquei a foto no Flickr. Por ter colocado a foto na Internet, um cubano que mora perto do largo onde tirei a foto, deixa um comentário há cerca de oito meses atrás: Gilberto, o dono do galo de Guantamero, o senhor sentado nas escadas morreu há cerca de duas semanas. Enterraram-no com uma garrafa de rum. Vai ter muito com que se divertir!.

Foi a terceira pessoa que fotografei e que já faleceu - a minha avó e o Irmão Roger - mas fico com estas recordações, estes retratos fiéis de quem eram estas pessoas.

 Fotografia Humanismo Joao Pedro Goncalves Estetica Imagem Cuba India Japao  Blog.Uncovering.Org Joao Pedro Goncalves Unknown

João Pedro Gonçalves


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