Conta Juan Goytisolo



 Tajana Marrocos Viagens Historia Conto Juan Goytisolo Praça Jemna El Fna, à noite

Hoje o post não é meu. É a tradução de uma pequena história contada por Juan Goytisolo no primeiro ensaio de Cinema Eden, uma compilação de textos do autor sobre o mediterrâneo islâmico. Goytisolo descreve um episódio que viveu no café Matich, um estabelecimento que fechou (e que eu não cheguei a conhecer), em plena praça Jemna El Fna, o peito aberto de Marraquexe. Recomendo vivamente o livro (a minha edição é inglesa, da Eland; o ensaio de onde se retira este episódio foi publicado, em espanhol, em 1997, num livro com o título De la ceca a la Meca).

Aviso que a historieta é quase nada - meia dúzia de gestos, quase nenhuma palavra, um actor que entra e sai. Mas são histórias destas que dão sentido a qualquer viagem. Esqueçamos os monumentos, as ruas e lojas percorridas, o longo cumprimento de objectivos turísticos. Vamos à história:

"Foi também lá [café Matich] que passei a mais poética e alegre véspera de ano novo. Estava sentado na esplanada do Matich com um grupo de amigos, esperando, embrulhado em roupa quente, a chegada do novo ano. De repente, como num sonho, uma carreta vazia fez a curva balouçante, no lugar do condutor um rapaz novo com dificuldade em manter-se direito. Os olhos vidrados demoraram-se numa rapariga loura sentada a descontrair numa das mesas. Extasiado, afrouxou as rédeas e a carreta rodou devagar até parar. Como numa cena em câmara lenta de um filme mudo, o nosso humilde cocheiro saudou a sua bela, convidou-a a subir para o calhambeque. Por fim, desceu, avançou hesitante e, com um rebuscado madam, madam, repetiu o floreado senhorial, o convite majestoso para o seu Rolls ou carruagem real, o seu landó de grande senhor.

A clientela solícita solidarizou-se com os seus esforços, as roupas velhas transformadas em atavios requintados, o veículo a transportar uma glória efémera. Mas alguém interveio e pôs fim ao idílio, conduzindo-o ao seu lugar. O rapaz não conseguia quebrar o feitiço, olhava por cima do ombro, atirava beijos e, procurando consolo do seu fiasco, afagou as coxas da égua com uma ternura comovente (ao som de um coro de risos e encores). Depois tentou trepar para o lugar do condutor, conseguiu com algum esforço e caiu de imediato para trás sobre os cartões vazios, enrolou-se numa bola (ao som de mais uma rodada de aplausos). Vários voluntários fizeram-no levantar-se e segurar as rédeas, ele soprou um beijo de despedida à divindade escandinava antes de desaparecer num trote vivo sobre a sujidade e o olvido do alcatrão, num estado de espírito melancólico de paraíso recusado."

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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