
Como algumas coisas mais cheias de furor, começou com bastante barulho. E barulho de todos os tipos, começando pelo som ensurdecedor de tiros saindo da TV do meu vizinho da frente; "estão assistindo o proibidão", anunciaram aqui em casa entre o quarto e a escada. Não imagino que seja um termo largamente usado fora do Rio de Janeiro; "proibidão" designa as músicas (me perdoem, não encontro uma palavra melhor para os que se ofendem) do funk carioca cujo conteúdo faz aberta alusão ao tráfico, às facções traficantes e/ou às suas práticas. Daí não me pareceu fazer sentido "assistindo o proibidão" porque eu não ouvia nenhuma batida, só as batidas policiais mesmo. Era a primeira cópia de "Tropa de Elite" que aparecia no meu pacatíssimo condomínio nos finais de Agosto.
O furor propriamente dito se instalou quando todos os vizinhos começaram a se ligar, a se gritarem nos portões uns dos outros discutindo a formação de uma fila para a audiência do pirat(ão). Fui logo assuntar do que se tratava e soube do filme proibido de ir ao ar nos cinemas que alguma alma muito bem informada havia feito cópia, agora disponibilizada aos amigos. Como proibido? Sim, proibido porque fazia apologia à violência, às drogas, a polícia corrupta e a quem mais aparecesse na frente do sub ou do supra-mundo do tal poder paralelo. Era feito por traficantes? Era alguma filmagem caseira dos bandidos mostrando torturas ou execuções? Não, tinha até aquele vilão da novela, o Olavo, o Wagner Moura; mas eles proibiram, disseram, porque falava muito mal da polícia .
Eu não sei porque diabos nessas horas eu sinto que todo o sangue do resto do corpo me foi para a cabeça e fiquei lá sozinha na minha incompreensão de como é que o governo havia censurado um filme. Como não se podia falar mal da polícia? O pior é que, alguns de vocês podem imaginar, aquilo era possível, nada mais pode surpreender no governo. Assiste com a gente? Não, eu não podia, já era meia noite e o dia seguinte me esperava bem cedo.
Numa segunda-feira lá estava eu em plena Avenida Rio Branco e tropecei na banca d'um camelô e seus compradores. Estava aos berros repetitivos de "PROIBIDÃO DO BOPE! AQUI É CINCO! AQUI É CINCO!". Com base na pesquisa do Jornal Folha de São Paulo divulgada essa semana, estimando que 19% dos paulistanos já tenham visto o filme em cópias piratas, o diretor José Padilha acredita que cerca de 5 milhões já tenham assistido ao Tropa de Elite só no Rio de Janeiro e em São Paulo. Disse isso hoje ao mesmo jornal, não parecendo ter algum ressentimento no discurso: Nunca antes na história deste país um filme teve uma repercussão como essa na mídia, brinca o diretor. Só "Cidade de Deus" gerou um debate tão acalorado. Fico feliz porque temos que discutir segurança pública no Brasil, diz ele. Recorde de pirataria, 300 mil cópias parecem ter se originado num roubo no laboratório onde se editava a película.
Mas, no final das contas, essa história de proibidão não era mais do que uma completa desinformação ou certa estratégia de marketing; o filme, baseado no livro "Elite da Tropa" de André Batista, com direção de José Padilha, que assina ainda o roteiro com Bráulio Mantovani, a partir da estreia no Festival de Cinema do Rio (no Odeon-BR), se manteve invicto em destaque. Lynch? Zhang Yimou? Hairspray? Angelina Jolie? Tudo foi ignorado. Na semana seguinte à chegada do festival (ingressos esgotados), metade dos jornais da cidade já se movimentavam com debates (ou simplesmente acusações) gerados pela catarse cinematográfica que coloca em foco o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) e sua filosofia pouco ortodoxa, crua, narcótica e truculenta de combate à auto-proclamada-guerra do tráfico no Rio.
Mas eu ainda passei em frente ao mural da faculdade - considera Tropa de Elite fascista - e fiquei pensando em como consigo ser a única moradora do Rio de Janeiro que ainda não assistiu às aventuras de Capitão Nascimento, Matias e Neto e que também ainda não incorporou no cotidiano expressões como "aspira", "na conta do Papa" ou "saco". Não, não é tanto pelo pudor das cópias ilegais que ainda estou nessa margem; simplesmente prefiro assistir no cinema, na tela grande (também já tenho vergonha de descobrirem pela vizinhança que é a minha primeira audiência...).
O problema será logo sanado. Estou à caminho do cinema para assistir à estréia adiantada em grande circuito para Rio de Janeiro e São Paulo (nas demais regiões, só no próximo 12 de Outubro). Trarei impressões.
Para saber mais:
Site oficial do filme
IMDB
Livro Elite da Tropa - de André Batista
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comments powered by DisqusSandra Leite
O “Tropa de Elite”, ao meu ver, ganhou uma dimensão maior do que pensava. O por que de tudo isso? Sinceramente, acredito que o “vazamento” das cópias piratas deve-se mais a uma tentativa do filme ser o representante do Brasil no Oscar (o que não aconteceu) do que uma “censura” ao filme.
O que eu li pela FSP, de 17 de setembro, é que :
“Integrantes do Bope tentaram proibir a estréia do filme prevista para o dia 12 de outubro alegando que a obra ataca a corporação e viola a honra, dignidade e até mesmo a integridade física dos policiais. Os pedidos foram vetados na semana passada pela juíza da 1ª Vara Cível do Rio, Flávia de Almeida Viveiros de Castro.”
Se foi o Bope ou o governo...há mais mistérios entre o céu e a terra(...), mas não acredito que o débil governo Lula tenha sido o culpado nesse caso (não sou lulista). Sempre acredito que o marketing está por trás. “Cidade de Deus “ e “Bicho de 7 cabeças” foram tão violentos e expuseram as mazelas da nossa polícia e das drogas e não passaram por esse crivo.
Mas o filme é chocante. Vale a pena ler a entrevista do ex-capitão do Bope, Paulo Stovani dada à jornalista Márcia Vieira do Estadão (23/9) que o Nelson do Pô, meu! reproduziu no blog dele (25/9).
beijos
isabella
Difícil ter acesso tão longe ... gostei muuuiito do artigo, amiga. E também do comentário da Sandra Leite. Beijo.
Aragão
O filme realmente foi algo em q eu nunca esperava...
Alessandro Abrahão Caram
Gostei de Tropa de Elite e achei um bom filme para entretenimento. Quanto ao incômodo causado pelas autoridades, só se pode especular. Acho que a polêmica gerada e multiplicada pela mídia só contribuiu para despertar maior interêsse do público servindo como um marketing barato. Ao final das contas é disso de que se trata: Tropa de Elite é só mais um produto criado para vender e obter lucros.
Edmilson Vieira
Toda Tropa é de Elite?
Tropa de Elite é o Estado com calça curta e barriga de fora.
Desde o dia em que vazou e começou a correria pro camelô que a história é essa: na tela, a periferia se mistura com a classe média; o jornal anuncia o assassinato do casal, e, para os universitários, a polícia é quem paga o pato.
Parece que não adianta investigar pra descobrir quem é o culpado do problema brasileiro. A corrupção, sucesso em Brasília é prima-irmã do armamento pesado.
É o Brasil que tem ginga, malícia, molejo, rapper e uma quantidade de pessoas e políticos na bandidagem, com o elo perdido na ditadura militar.
O filme de José Padilha se tornou invasor da família. Exibe a gatunagem em casa, pra adolescentes, adultos, idosos e bebês a partir dos quatro, cinco anos de idade. Ninguém quer deixar de assistir ao roteiro de bandido e polícia pulverizado de sul a norte do Brasil.
Amigos, é o Rio pirata que passou em nossas vidas, mas corra que a história não acaba no cinema. Bang, Bang! Pruin, pruin!
Edmilson Vieira é artista plástico e escreve crônicas
dnv01@hotmail.com
sol
assisti e gostei muito do filme tropa de elite, das aventuras do capitão nascimento , do neto , do matias, e etc.
valeu apena assistir tropa de elite
GEOVANE
ASSISTI AO FILME E OBSERVEI ALGUNS PONTOS INTERESSANTES.
1º O AUTOR MOSTRA O LADO NEGRO DE UMA cORPORAÇÃO ESTATAL QUASE Á FALÊNCIA POR FALTA DE RECUSROS FINANCEIROS, DESDE SALÁRIOS AO BÁSICO PARA SEU FUNCIONAMENTO.
2º MOSTRA O LADO NEGRO, A CORRUPÇÃO DO ESTADO E O CRIME DO LADO OPOSTO,EQUECENDO DE MOSTRAR AI O LADO BOM E HONESTO DO PODER LEGAL(POLICIA, NO FILME SÓ O BOPE POSSUI BONS E HONESTOS POLICIAIS;
3º ESQUECE O AUTOR DE MOSTRAR OUTRAS COISAS BÁSICAS QUE A SOCIEDADE NÃO VÊ, QUE SÃO OS ESFORÇOS ABSURDOS DOS POLIVCIAIS HONESTOS PARA TRABALHAR SEM NENHUMA CONDIÇÃO MONETÁRIA SATISFATÓRIA E DE MEIOS.
4º O FILME TERMINA MOSTRANDO UM FINAL ESCURO ONDE UM POLICIAL MATA UM BANDIDO QUE NA HORA DA MORTE USA DE IRONIA "NÃO ATIRA NA CARA NÃO PRA NÃO ESTRGARO VELÓRIO".ALI NAQUELE MOMENTO TANTO A FORÇA POLICIAL QUANTO OS BANDIDOS SE IGUALAM. SERÁ PORQUE? 1) SE NÃO HOUVESSEM USUÁRIOS NÃO HAVERIAM RAZÃO PARA O TRÁFICO, 2) SE NÃO HOUVESSE IMPUNIDADE INCLUINDO DOS GOVERNANTES, A LEI SERIA CUMPRIDA A RISCA E NÃO HAVERIA CHACINAS, 3)SE OS POLICIAIS GANHASSEM O SUFICIENTE NÃO SE CORROMPERIAM.
4º O FIM DO FILME FOI UM "PÉ SEM CABEÇA", NÃO HÁ UM FOCO CENTRAL, A RAZÃO OU RAZÕES E NEM MESMO OS POR QUÊS?
MAS PARA UMA PRODUÇÃO BRASILEIRA SEM NENHUM RECURSO MAIS VULTUOSO FOI DE ÓTIMO A EXCELENTE.
O BOM SERIA SE A "ESTÓRIA" CONTIVESSE MAIS REALIDADE DO QUE FICÇÃO.
marcelo
s
abel valerio
a realidade nua e crua,custe a quem custar
É um problema que só de pensar nele arrepia
e aquelas pessoas,crianças,idosos:são seres humanos que vivem no século xxi
Aqui era a pena de morte para todos os traficantes e cumplices !!!!!
Devia de haver mais B:O:P:E:S
M4Jor
Gostei do filme, vi tb pirateado, mas preferi muito mais este grande post, extremamente bem redigido e com bastante comédia.
Gostei mesmo deste 2/3 minutos de leitura.
thanks