Viagens #20: Finalmente, as nogueiras


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Da primeira vez que aqui estive criei uma fixação por estas nogueiras e pelos zimbros das montanhas. Por motivos diferentes; os zimbros são criações caprichosas, cada um entretido a pensar como há-de ser quando for grande. As formas variam entre elegantes árvores de tronco direito (embora atarracado) e copa em cogumelo, e uns montes desajeitados de verde com meia dúzia de raízes e ramos cobertos de folhas duras e curtas, como uma carapinha, estendidos entre calhaus no chão. São raízes que furam rocha; são árvores que fazem o que querem, e que dão uma sombra abençoada nas montanhas de pedra.

Já as nogueiras são outra coisa. São os gigantes do vale, gigantes generosos e sem pressa. Crescem isoladas ou em grupos à beira dos canais de rega. Há-as com copas de mais de 15 metros de diâmetro e outros tantos de altura, e debaixo da copa é como se houvesse um parque: sombra e sussurro das folhas e vibração das cigarras, um chão verde de ervas nativas onde as pessoas podem sentar-se. Algumas são muito velhas, com teias complicadas de raízes, crateras abertas no tronco seco. Morrem e ressuscitam; encontram-se restos de troncos meio caídos, ainda presos à terra, de que já não se espera nada e que no entanto lançam ramadas novas, com folhas de um verde claro quase transparente ao sol.

Por vezes uma fila de nogueiras esconde uma aldeia inteira. Desenham uma linha ao longo dos caminhos, como uma pálpebra fechada. Vamos para debaixo delas como quem entra num jardim ou numa casa grande e fresca; as crianças brincam lá debaixo, correm à sombra, molham os pés na água dos canais. Há uma aldeia que tem ao fundo um terreiro com o poço rodeado de nogueiras, como a praça de uma cidade com uma fonte no meio.

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Quando cheguei aqui, ainda a folhagem nova da Primavera não estava completa. Foi aí que descobri que as nogueiras têm cheiro, nessa altura. É um cheiro que lembra o das folhas de loureiro, mas mais verde, mais fresco. Explicaram-me que mascar folhas de nogueira faz bem aos dentes; o sabor é como o cheiro. Em Outubro, mês da colheita, dizem-me ainda que esfregar as cascas e polpas verdes das nozes nos dentes e gengivas também é bom. Submeto-me à experiência, e fico com os lábios a arder. O sabor é verde e picante.

Nesta época de colheita (contemporânea das maçãs, já terminadas as ceifas de Verão) ouve-se um pouco por toda a parte o toc-toc dos homens que varejam as nozes, com as varas compridas e finas a bater nos ramos. São acrobatas de um tipo especial, porque além da agilidade e do equilíbrio têm de medir a resistência dos ramos. Avançam pelo tronco, com as varas na mão, e depois por ramos e ramos cada vez mais finos, até quase chegarem às pontas. Caminham com cautela, mas com a intimidade de quem anda pelos corredores de uma casa antiga. Ao mesmo tempo, vão partindo ramos secos, lenha velha. Sinto vertigens só de olhar. Sim, às vezes caem. Há histórias de pernas partidas e de mortes ocasionais.

Cá em baixo, são homens ou mulheres que apanham as nozes, consoante o costume de cada aldeia. Os apanhadores (no meu caso, eram só mulheres) avançam em blocos compactos, com baldes, segundo um percurso cuja principal lógica é não estar onde as nozes caem. Cada uma tem direito, no final, a um quinhão bem contado de nozes. Também eu tive o meu balde, prémio por três ou quatro horas a andar de cócoras (à noite, ao fechar os olhos, via nozes por entre erva verde, e mais nozes, e mais duas ali ao lado). Depois dos apanhadores oficiais, vêm os respigadores, crianças ou pessoas pobres. Passam de saco meio vazio de manhã e meio cheio à tarde. Não apanham apenas as nozes esquecidas; é de tradição que a cada um que passe a pedir nozes seja dada uma mão cheia delas. (Lembro-me de há anos um amigo alemão me explicar, perante a minha alegria por não haver na zona onde ele morava sebes nem muros a fechar os campos, e portanto podermos atravessá-los em longos passeios, que essa era uma tradição muito antiga na Alemanha que permitia que mesmo os mais pobres pudessem ter o que comer, aproveitando todos os restos das colheitas dos proprietários das terras. E, para isso, não podia haver impedimentos à sua passagem.)

Samira e Nora, por exemplo. Apareceram há dias, estava eu sentada a descansar com uma família que vive a caminho da fonte; era Ramadão e todo o movimento a mais era de evitar. Homens e mulheres estavam estendidos em esteiras por entre os montes de cascas verdes e as nozes já descascadas, nos retalhos de sombra e de sol cortados pela folhagem. Uma miúda de uns sete ou oito anos aproximou-se num silêncio concentrado, senhoril, trazendo às costas uma menina que ainda não devia ter dois anos. Estendeu-nos a mão sem dizer nada (uma mão muito suja) e ficou de pé. Ficou. Senti-me como um actor que não sabe a deixa. E depois sentou-se, soltou o pano que prendia a menina (Nora, viemos a saber depois), sentou-a no colo e começou a dar-lhe beijos e abraços. Cumpridos cinco minutos de silêncio, a dona da casa disse-lhe que colhesse uma maçã. A Samira colheu-a e deu-a à Nora. Passados mais quinze, pediram-lhe que enchesse um balde de nozes - primeiro passo para merecer retribuição - e deram à pequena dois miolos, ainda mal secos, que ela mastigou e começou a tentar cuspir, para pânico da mais velha, já consciente das regras da gratidão, ainda que as nozes fossem verdes. As raparigas estiveram ali sentadas, a ouvir as conversas, a mastigar a maçã e as nozes, quase uma hora. Homens com o saco às costas chegavam, saudavam-nos e esperavam a sua dose, e seguiam caminho, e elas ali. Até para pedir há muito tempo. Finalmente, talvez achando-se destronadas pela vinda de duas meninas da casa vizinha, foram embora - Samira e Nora, com o seu saquinho de nozes e uma maçã em cada bolso.

Descascar nozes – tirar a polpa exterior, verde - é um trabalho que deixa as mãos completamente negras, como se tivessem sido pintadas com hena. Com o passar dos dias, essa cor escura acaba por sair (continuo à espera, e só descasquei meia dúzia). Portanto, esta é a época em que toda a gente parece ter as mãos e unhas muito sujas.

Para minha sorte, uma das minhas nogueiras preferidas fica no pomar em frente à casa onde estou. É uma nogueira muito velha, com o tronco oco e um ninho de cegonha vazio no cimo. O tronco é oco como são os troncos dos livros infantis e dos desenhos animados: com uma grande abertura na base, onde eu podia facilmente entrar se me baixasse. Na realidade, e ao contrário das histórias infantis, não entro: tenho medo dos bichos; pressinto um cheiro desagradável; e, pelo menos no Verão, mal me aproximo sou apanhada numa enorme nuvem de mosquitos. O campo é bonito, mas, contrariamente ao que se vê nos filmes, tem bichos em toda a parte. Da mesma forma, se fosse um filme o meu ninho de cegonha não estaria vazio.

É quase possível atravessar o vale andando sempre à sombra das nogueiras, embora isso obrigasse a um longo e complicado percurso. Ainda não ganhei juízo para deixar de fotografá-las. Não cabem, literalmente, na imagem.


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