
Manhã de 5 de Junho de 1989: o Exército Vermelho controla completamente Beijing. Quando todos os protestos na cidade pareciam estar silenciados o mundo assistiu a um acto de desafio, um acto de desespero e coragem de um homem isolado, porta voz de um povo em ruptura, que obteve do comandante da coluna de tanques que ousou desafiar uma resposta tão corajosa quanto condigna.
A primavera de 98' assistiu à maior manifestação pró-democracia na história do regime dito comunista Chinês. Os protestos iniciaram-se em Abril entre os estudantes universitários de Pequim, e espalharam-se rapidamente pela nação.
Durante o tempo que durou a sublevação os dirigentes de topo da hierarquia do regime dividiram-se quanto à forma como a rebelião deveria ser tratada, com uma facção a defender o diálogo e outra a apostar na repressão pura e dura. A 4 de Junho, com um assalto mortífero às posições rebeldes por uma força do Exército de Libertação do Povo (PLA) estimada em 300 mil efectivos, ficou clara a opção do Partido Comunista Chinês e a insurreição foi violentamente abafada em Beijing e no resto do país. Mais uma vez o regime sujou as mãos com o sangue do povo: pelo menos duas mil pessoas pereceram às mãos do PLA, e um número não determinado de feridos e detidos veio engrossar as negras estatísticas da rebelião.
Obtida em 5 de Junho de 1989 por Charlie Cole, da varanda do quarto de Stuart Franklin no hotel onde estava hospedado, esta fotografia foi publicada na Newsweek e capta o momento em que um jovem, desarmado, carregando o casaco numa mão e sacos de compras na outra, quando nada o fazia prever se coloca, de repente, defronte a uma coluna de blindados que se deslocava lentamente em direcção a Tiananmen, travando a sua marcha. O blindado que liderava a coluna em vez de o esmagar à passagem tenta por várias vezes contorná-lo sem sucesso. Por fim o tanque desiste da manobra e cala o motor. Então o jovem sobe para o tanque e dirige algumas palavras ao condutor e ao comandante do blindado questionando a actuação do exército. Ao descer do tanque é rapidamente retirado do local por um grupo de pessoas e num ápice perde-se nas pardas sombras da cidade.
Pelo menos dois outros fotógrafos captaram o mesmo momento sob diferentes ângulos: Stuart Franklin da Magnum
O local onde foram obtidas denomina-se Cháng Ān Dà Jiē (长安大街), ou "Grande Avenida de Chang'an", e conduz à Cidade Proibida que fica a um minuto de distância da Praça Tiananmen.
Parte da sequência do incidente foi captada em vídeo:
Todos estes anos volvidos continuam desconhecidas as identidades e os destinos deste jovem rebelde e dos outros não menos importantes intervenientes no incidente: o condutor e o comandante do tanque, que com as suas atitudes de desafio ao poder instituido e de solidariedade com os manifestantes, com o massacre de Tiananmen recente de um dia, trouxe uma réstia de esperança aos que contestam e resistem à hipocrisia de um regime que se diz defensor dos ideais de "justiça, liberdade, igualdade e fraternidade".
5 comentários
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andre, jerico
Andei sumido por conta da organização do Projeto Macabéa e do maravilhoso trabalho com a equipe, que por sinal vc não veio conhecer. Mas depois de algum tempo é sempre bom voltar a te ler.
Beijo do Jerico
www.ideiadejerico.com
www.projetomacabea.wordpress.com
Mário
O que é verdadeiramente interessante é ouvir as justificações dos acérrimos comunistas a tentar justificar este acto.
Nelson
Caro JR,
Por que o "dito" na frase: "A primavera de 98' assistiu à maior manifestação pró-democracia na história do regime dito comunista Chinês."?
Abraços e sucesso,
silvioafonso
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"Enquanto uma borboleta bate suas asas nas muralhas da China, há uma torrencial
tempestade pelo mundo".
Teoria do (possível) Caos.
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? Silvioafonso
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É com prazer que eu cheguei para esta festa.
Você pode me ver no sorriso dos mais afoitos,
nos olhos morteiros dos atrevidos e nas
orações dos que em Deus buscam um jeito
doce e amigo de ser.
silvioafonso.
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