
Dura somente umas fracções de segundo, traduz-se por uma estranha impressão de já ter vivenciado a cena presente e mesmo saber o que se vai passar em seguida, ainda que a situação que esteja a ser vivida seja inédita. O déjà vu, ou paramnesia como também é conhecido, tem sido ao longo dos anos objecto das mais díspares tentativas de interpretação, mas para nós, comuns mortais, continua a ser um quebra-cabeças inexplicável.
Émile Boirac, filósofo, cientista e esperantista francês, profundamente interessado em pesquisas na área da parapsicologia, deu o nome, em 1876, a este fenómeno curioso que durante anos foi considerado como sendo uma reminiscência de vidas passadas, prova segundo alguns, da existência de reencarnação.
Sigmund Freud dava-lhe outra explicação: as cenas familiares seriam visualizadas nos sonhos e depois esquecidas e, segundo ele, eram resultado de desejos reprimidos ou de memórias relacionadas com experiências traumáticas. Outra das explicações propostas fazia depender o fenómeno de uma similitude entre elementos da cena vivenciada e elementos de outras passadas mediada por um fenómeno emocional.
Ao longo dos tempos a vastíssima Ciência Médica foi avançando diversos cenários para o fenómeno e hoje os progressos nas Neurociências fazem emergir várias hipóteses: uma decalage no encaminhamento das percepções por diferentes vias nervosas que leva a que a informação retardada não seja considerada pelo cérebro como “nova”, é uma delas.
A forma como o cérebro memoriza uma informação, colocando-a directamente na memória a longo prazo sem passar primeiro pela memória a curto prazo, podendo fazê-la parecer uma recordação longínqua em vez de uma informação do presente, é outra das teorias propostas para o fenómeno.
Fabrice Bartolomei, Neurologista francês, vem agora propor uma explicação diferente que começa a tornar-se consensual nos meios científicos: o “déjà vu” será resultado de uma fugaz disfunção da zona do cortex entorrinal, situado por baixo do hipocampo e que se sabia já implicada em situações de “déjà vu” comuns em doentes padecendo de epilepsia temporal.

Experiências de estimulação do córtex entorrinal com recurso a eléctrodos demonstram que as pessoas submetidas a esta estimulação sofrem sensações de familiaridade com tudo o que os rodeia em 11% dos casos, contra 2% nas pessoas em que somente as zonas vizinhas do córtex entorrinal são estimuladas. Testes realizados com macacos, evidenciando a activação do córtex entorrinal em situações de descoberta de um novo elemento num conjunto, parecem também apoiar a teoria da existência desse “bug” cerebral.
Experiências conduzidas por investigadores do Leeds Memory Group permitiram recriar em laboratório e com recurso à hipnose sensações de "déjà vu", no que parece constituir uma nova base de trabalho para o esclarecimento do fenómeno que mereceu de Alan S. Brown, reputado investigador e autor de pesquisas nesta área da Southern Methodist University, comentários muito positivos.
Outros dados apontam para que situações de stress ou fadiga possam favorecer, neste contexto disfuncional, o aparecimento do fenómeno, mas a causa precisa deste “curto-circuito” cerebral permanece ainda desconhecida. Até lá, até que as Neurociências venham fazer definitivamente luz sobre o assunto, vamos gerindo com uma pontinha de estupefacção e de incredulidade os nossos “Esta cena parece-me familiar. Mas onde raio é que eu já vi isto?”
Bugs Felizes.
15 comentários
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Sandra Leite
Enfim alguém explicou parte dos "bugs" cientificamente pra mim. Tenho bugs...hummmmm;)
Sempre acreditei um pouco mais na linha freudiana (era a mais sensata, diz uma economista :-) ), mas adorei essa visão neurológica!
Ah, e parabéns pela "casa nova". Se já era dependente do Obvious (que não leia a Dina), agora tanto mais!
bjs daqui.....
PS: Em tempo, NUNCA tive problemas com os meus comentários no Obvious :-)
Ícaro.182
Não sou especialista em nada, mas tenho opinião:
Acredito, como Freud, que as pessoas têm desejos e ânsias que são rebatidas incessantemente pela nossa mente (conscientemente ou não), de tanto rebatê-las criam-se conjuntos de situações "prováveis" que às vezes, de fato, acontecem. Ademais, os detalhes mais minuciosos são moldados pela mente a fim de deixar tudo *familiar*.
Digamos: estava pensando em uma garota incessantemente. Em sonhos, em pensamentos tudo convergia a ela. Como tinha uma festa que *sabia* que ela também iria comecei a imaginar, em sonhos, o melhor jeito de me aproximar dela e coisas do gênero, afinal, tenho 15 anos. No dia da festa acorreu tudo *igual* ao que eu tinha imaginado, até coisas improváveis como cores de vestidos e acontecimentos inusitados.
Acredito que esses acontecimentos inusitados não foram previstos como eu acreditei inicialmente, mas sim *impostos* pelo meu próprio raciocínio o qual me *forçou* a aceita-los como se já tivessem sido previstos. Eu não imaginei a cena e os detalhes *inimagináveis* apenas ao vivenciá-los os enquadrei, inconscientemente, na cena. O que causou impressão de já tê-los vivenciado.
seven
Essa é uma das teorias, Ícaro. Obrigado por comentar e volte sempre
franz stockler
dificil será convencer os espiritas do contrário.
Carolina Oliveira
Interessantíssimo o artigo, mas creio que a neurologia ainda tem muuuito o que pesquisar sobre esses fenômenos. Mas isso já nos livra de uma porção de superstições acerca do assunto. Obrigada pela explicação.
shingo yabuki
o dia que freud coinseguir explicar como que eu sonho com coisa que ainda não aconteceu eu começo a respeitar ele
dos campos da medicina o mais inútil que existe com certeza é o da neurologia, isso pq medicina já não consegue nem ser algo exato ainda
aposto "10zao" q daki 3 meses vai ter outro neurocientista fodão dando outra explicação sobre a mesma "verdade"
Flávio Costa
Excelente matéria. Dos campos da Medicina um dos mais úteis e fascinantes atualmente é o da Neurociência, que avança a passos largos.
podemos dizer que a Ciência vive em busca da "Verdade", mas sabe que ela não existe, e por isso o conhecimento avança, movido pelo questionamento constante. Só as religiões acham que verdades imutáveis existem (dogmas), daí o evidente atraso de vida que elas divulgam.
Deivid Rothen
eu acredito que seja uma união do bug cerebral com a versão do ícaro, q eu tbm ja tinha pensado nessa verção, mas ja notei que somente tenho deja vus quandoestou usando meus cinco sentidos, visão, audição, tato, paladar e olfato. ai parece q da uma sobrecarga no meu cerebro, sendo q minha memória naum consegue armazenar todas as informações, dae me vem a sensação de dejá vu, essa acho eu q pode ser uma teoria, tentem notar quando acontecer algum dejá vu com vcs, o q vcs estão fazendo.
guilherme melgaço
será que o fato do cérebro buscar informações no futuro para utiliza-las no presente pode responder ao fenômeno, tenho informações na disciplina de "física para mente " onde este fato foi comprovado onde toda a turma pode ver como realmente aconteceu, e eu também estava presente, foi algo incrível, mas é a mais pura realidade.
Pedro
revejo-me totalmente no que o Icaro disse, eu prório já tive umas "previsoes" que se confirmaram ou apenas deja vus, não sei bem o que são mas a explicação do que eu vi ser visto no presente e rotulado como passado não me convence muito
Luís Felipe Virgulino da Silva
PessOal me ajUdem tenhO 13 anOs e estOU tendO DejavÚ sempre, freqUentemente eU vivenciO algO ki ja vi em meUs sOnhOs, Oq devO fazer? estOU mUito assUstadO e-mail: feeh_lype89@hotmail.com
Obg
carina
tenho as vezes dejavú e nao tenho nenhum tipo dessas doenças,e ai qual a esplicaçao?
ricardo luciano
Eu já não consigo é acreditar na linha freudiana, parece muito simplista para algo que vem a tanto tempo sendo pesquisado, enquanto a ciência não decifra a resposta (não que a resposta da ciência seja absoluta) prefiro o lado romântico do espiritismo.
João Victor
Já conhecia todas essas hipóteses sobre o dèja-vu, mas nenhuma delas explica os dèja-vus que tenho (inclusive com grande frequência). Eu de fato vivo a mesma cena duas vezes, e, às, vezes, a mesma cena ocorre três ou mais vezes. Não se trata de ter a IMPRESSÃO de já ter vivido uma cena, mas REVIVER DE FATO a mesma cena. Isso inclui não apenas a visão e a audição, mas o pensamento. Sempre o mesmo pensamento e as mesmas sensações ao mesmo tempo.
É talvez o único fenômeno inexplicável que eu próprio nunca consegui pensar em uma hipótese para explicá-lo.
pedro
RE: Pois, mas é isso mesmo que chamam deja vu!
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