
Para que não digam que eu não sou amiga, aqui fica a receita do famoso, one and only, chá marroquino.
Algumas notas prévias: o chá marroquino não leva necessariamente hortelã (essa é a versão aromatizada thé à la menthe). É, na base, uma bebida feita com chá (o verdadeiro chá, camelia sinensis, e não qualquer das outras plantas que se usam em Portugal para fazer infusões e a que damos também o nome genérico de chá) e açúcar.
A esta infusão podem depois acrescentar-se ervas que aromatizam, embora com alguma frequência seja bebido simples; a mais habitual é a hortelã, na mesma variedade que temos comummente em Portugal, mas podem usar-se outras variedades de hortelã, ou mesmo poejo, tomilho, salva, artemísia, e pareceu-me ouvir alguém falar há dias de alecrim. O meu preferido é o de poejo; o de tomilho tem um travo amargo que faz equipa com o amargo do chá e cria um excelente contraste com o açúcar. Muito açúcar. Não é uma bebida para diabéticos.

O tipo de chá usado é chá verde - "thé vert de Chine", lê-se em todas as embalagens, algumas acrescentando "extra - chunmee" ou "sow mee". Este chá deve o seu nome à forma das folhas depois de enroladas, que lembram as sobrancelhas delicadas de uma mulher. O sabor é diferente de outros chás verdes que tenho provado, nomeadamente alguns tipos de chá japoneses (que têm muitas vezes um travo ligeiramente fermentado) ou o açoriano Gorreana (e aproveito para fazer a publicidade, porque é um chá de muita qualidade). Usei uma vez chá Gorreana para preparar um chá marroquino; embora o resultado não fosse mau, o chá começou a amargar ao fim de poucos minutos, o que não acontece com o chunmee. Portanto, nada de chás pretos, nem de pacotinhos Lipton que dizem que são chá verde. Mantenham a dignidade e vão a uma boa casa especializada em chás.
Passando a vias de facto: é preciso uma chaleira, um bule ou cafeteira que possa ir ao lume, chá verde da China, açúcar, copos (é mais catita usar copos pequenos e estreitos como os que se usam aqui, mas isso é um detalhe) e hortelã, ou outra erva aromática à escolha.

Ferve-se a água na chaleira. Coloca-se dentro do bule o chá (a concha de uma mão, ou duas colheres de sopa rasas, para cerca de 4 dl de água). Quando a água está a ferver, deita-se o equivalente a um copo de água dentro do bule e deixa-se repousar durante cerca de um minuto, não mais. Despeja-se esta primeira infusão para um copo.
De seguida, deita-se de novo mais ou menos a mesma quantidade de água no bule e agita-se, em círculos horizontais. O objectivo deste passo, segundo me explicaram (nem toda a gente o faz) é lavar as folhas de chá. Há quem diga que é para diminuir o sabor amargo do chá. Depois de agitar durante alguns segundos, deita-se fora esta segunda infusão. Sugiro que experimentem deitá-la num outro copo, para verem como a água está escura e turva - nada a ver com a água dourada e translúcida da primeira infusão (ver foto abaixo).

Deita-se no bule a primeira infusão; junta-se o resto da água a ferver, a hortelã lavada e torcida até partir (mas não cortada) e o açúcar. Não sei dizer-vos quanto açúcar, mas mais do que vos parecer razoável. Embora nem toda a gente coloque tanto açúcar como aqui no vale de Ait Bouguemez (dão sempre a desculpa da vida de montanha), um chá como deve ser é bastante doce. Podem sempre começar com pouco e acrescentar mais no final, ajustando ao vosso gosto. Na última fotografia deste post, podem ver um pão-de-açúcar (verdadeiro), que é o formato de açúcar mais consumido aqui.
É também difícil dizer qual a quantidade de hortelã, mas é igualmente muita. Imaginem que apanharam uma mão cheia de flores do campo para fazer um raminho apresentável para oferecer à primeira namorada (este foi um momento bonito). Quando olharem para dentro do bule, deve haver entulho (chá, hortelã) até ao cimo da água. O poejo, que é mais forte, pode ser menos. Mais uma vez, é também uma questão de gosto.
Levem o bule ao lume e deixem ferver durante uns 10 segundos. Quanto mais tempo, mais forte fica o chá (e talvez não o queiram muito forte). Retirem e deixem repousar um minuto. Encham um copo e voltem a despejar no bule. Repitam. O objectivo desta fase é misturar o melhor possível o açúcar (deduzo eu). Provem para ajustar se necessário o açúcar (não é preciso voltar a ferver). Deixem repousar mais um minuto e sirvam. Se quiserem ter alguma espuma, tentem deitá-lo num fio lento de toda a altura do vosso braço.

Uma outra possibilidade é perfumar o chá com açafrão, em vez de ervas aromáticas - açafrão do verdadeiro, do mais que caro caríssimo. Segundo me disse um guia da kasbah de Ouarzazate, este chá com açafrão é afrodisíaco. Respondi-lhe que já tinha bebido e não tinha reparado. Ele ficou espantado por eu não ter sentido "nada lá por dentro"; mas como passou cerca de uma hora a tentar convencer-me a aceitar "uma massagem berbere com óleo de argão, absolutamente grátis", não sei se terá sido alguma invenção do momento para me testar.
A melhor coisa para acompanhar este chá são nozes. Ao contrário de nós, os marroquinos bebem-no antes, e não depois da refeição (e ao pequeno-almoço, e ao lanche, e sempre que calha ou que há visitas). Há dias, numa caminhada pelas montanhas do Saghro, contámos os copos de chá que tínhamos bebido ao longo do dia. Eu fiquei-me pelos 11; o guia tinha bebido pelo menos 14. Uma perfeita alarvice que soube lindamente.
13 comentários
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.
Kriz
Olá. Gostei muito do seu blog e esta receita de chá marroquino veio bem a calhar.
É muito interessante ter à disposição artigos sobre cultura de uma maneira geral: culinária, cinema, comportamento, artes, livros, etc.
Creio que muitos blogs na Internet carecem dessa faceta.
Abraços e sucesso!
seven
Muito obrigado, Kriz. Sempre à disposição ;)
Dina
Adoro chá-chá-chá.
Hoje até vou experimentar este.
sanson
Oi Tajana, sei que não tem nada a ver com o blog (que acompanho direto) mas tem a ver com o post. Conhece o Receitaculo.com? Seu chá ia fazer sucesso lá. Dê uma olhadinha.
Ali
Ola ( اهلا و سعلا بكم)
Gostei imenso deste blog. É muito interessante ver alguem em Portugal a escrever sobre o maravelhoso chá Marroquino (( one and only one )). Sou de Marrocos( Berbere ) e faço workshops de Bebidas e Comidas Marroquinas em Portugal. Digo ao autor de Blog muitos parabéns para a recaita de nosso chá.
Aqui dou o meu email: almezh@hotmail.com
سلام عليكم
Ali
tajana
Olá, Ali,
obrigada pela visita e pelo comentário. Deduzo que a minha receita, agora, esteja certificada:) Vou investigar esses workshops - já tenho saudades da comida de Marrocos (há coisas que faço em casa, mas nao é a mesma coisa que comê-las lá...).
Ali
Ola Tajana,
Muito Obrigado.
Tambem faço em casa as minhas comidas morroquinas mas não são 100% mesmas, falta sempre aqueles materias traditionais e o ambiente familiar claro.....
Ate breve
Um beijo
Ali
jucelino
odiei essa porra de cha eu so engordei
alem dele ser ruim e cheiro de casete
fiquei com uma dor no cu que tu nem imagina
por isso nao recomedo esse cha de porra pra ninguem
e voces vao se fude e toma no olho do seu cu
seu bando de bosta
jeandra
adorei a nova receita desde entao vou usa-lo na experiência da oficina de plantas medicinais na minha escola solidônio leite em serra talhada pernambuco.
um beijo!!!!!!!!!!!!!
turma do acelera brasil
instituto ayrton senna.
Maria
Adorei!
Lucas
Gostaria de saber se voçê sabe como preparar o chá a partir da raiz da curcuma. Normalmente eu faço chá da raiz do gingibre e já que eles são da mesma familia penso que o chá pode ser feito de forma semelhante. Mas vi que em excesso a curcuma pode ser hepatotoxico... Então queria mais esclarecimentos. obrigado
milena
queria sabem como faz chá de açafrão pois e um trabalho da minha escola de fazer cumidas ou chá qualquer coisa feita de açafão...
Ali
Olá Melina,
Eu nunca ouvi falar de usar o açafrão no chá mas sim eu uso na comida marroquina . Na minha terra natal ( Marrocos ) usamos muito o açafrão no couscous, no tagine até há mesmo um molho de açafrão para companhar a comida as vezes.
Ps. Quem esta interessado em saber mais sobre a culinária marroquina ou comprar algo típico por favor de me contactar : almezh@hotmail.com
Cumprimentos ao dono deste blog Tajana.
Ate breve
Ali
Deixe-nos o seu comentário
O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.