um virulento sentimento de desprezo

Paula Rego - Salazar a vomitar a Pátria
Tristeza, vergonha e abominação: o tribunal da Relação de Lisboa, Portugal, acaba de dar razão à direcção de um hotel no despedimento com justa causa de um dos seus cozinheiros portador de HIV. Se não fosse trágica esta decisão "quarto mundista" seria no mínimo risível. Assim torna-se no espelho desta Nação com Rei mas sem Roque.
A lista é infindável: os tresvarios autocráticos do governo, os atropelos constantes aos direitos legais da contestação e da greve, a pulverização sistematizada da classe média e do poder de compra de quem realmente dá no duro, os desmandos na Educação e na Saúde com medicamentos de ponta a serem "politicamente travados" no Infarmed e a institucionalização de uma "saúde de segunda" prefigurada na morte anunciada do Serviço Nacional de Saúde, a mais que provável sobrecarga de pagamento de portagens em estradas que não são auto-estradas e que não possuem alternativa viária credível, a "espécie de magazine" em que se tornou o(s) caso(s) Casa Pia que, qual Ballet Rose versão século XXI, bafeja os corredores do poder....
O Governo elege-se, e em boa medida temos aquele que merecemos. A Justiça nomeia-se e em má medida temos aquela que nos impingem. Que a Justiça é cega já se sabia. Que é tão cega assim só se intuia. Agora sabe-se!
O que dói neste caso de absoluto desrespeito pelos direitos deste trabalhador é o facto de quer o Tribunal de Trabalho no primeiro acórdão, quer o Tribunal da Relação no segundo, terem ignorado pareceres técnicos de comprovada fidedignidade que avalizavam a pretensão do trabalhador, negando a possibilidade de transmissão do HIV pela manipulação de alimentos. Ademais qualquer consulta séria ao manancial de informação especializada sobre este assunto em particular, e à infecção por HIV e suas formas de transmissão em geral, bastaria para pôr cobro à paranóia que se apossou dos causídicos em questão.

Outra das graves implicações deste caso ultrajante prende-se com o sigilo sobre o estado de saúde dos pacientes, a que estão sujeitos por dever todos os profissionais de saúde, que foi neste caso aparentemente desrespeitado pelo médico de Trabalho da empresa em questão, e das repercussões que esta quebra de ética vai ter sobre os portadores de HIV: quem no seu perfeito juízo, sendo portador de HIV e trabalhador de um ramo sensível de actividade económica, vai doravante confiar a sua seropositividade ao médico suspeitando que o mesmo pode "bufar" o seu estado à entidade patronal e assim pôr em risco o seu posto de trabalho?
Se a ideia de "quem tem HIV é despedido" prevalecer isso não vai ajudar ninguém. Os doentes não reportarão o facto de serem HIV positivos e o risco de contágio vai ser claramente maior. Um mau serviço e um mau exemplo este que nos estão a prestar, o qual exige da nossa parte o mais vivo repúdio e da parte de quem de direito, OM e STJ, resposta rápida, cabal e exemplar. Antes que seja tarde.
Estes senhores, a exemplo de Salazar, vomitam no bom senso dos portugueses. Para eles e para os seus inqualificáveis actos o meu, o nosso, mais virulento sentimento de desprezo.
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14 comentários
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Ao saber da notícia fiz questão de confirmar pela segunda vez.Já estamos em 2007, não é?
Fiel em 19 de novembro de 2007

gostei do post e da tela...vou pesquisar esta artista! seu blog continua ótimo, abraços.
cris em 19 de novembro de 2007

Tenho pena de si. Você porta-se como um desprezível salazarista e não sabe que o é. Para a próxima vez que pretenda ser correia de transmissão da central de contra-informação anti-governo procure ao menos saber da veracidade do que propaga a fim de manter alguma aparência de credibilidade. A terminar, sobre o caso com que inicia o artigo, procure saber se é ou não verdade que a divulgação do estado de infecção por HIV foi feita em tribunal pelo advogado do queixoso e nunca pelo médico junto da entidade patronal.
Para si tanto deve importar que o que acabo de dizer sejaa mais límpida verdade, uma vez que só parece interessar-lhe a guerrilha anti-PS, anti-Sócrates e anti-Governo.
rui mascarenhas em 19 de novembro de 2007

Como alguém disse, "isto" não é um país, é um paradoxo!
Mateus em 19 de novembro de 2007

Meu caro Mascarenhas: comente, conteste, insulte até à sua vontade desde que o fundamente. Agora não venha para aqui invocar coisas como "correia de transmissão da central de contra-informação anti-governo" e demais jargões políticos. Se há coisa a que este este blog está acima é da política. Não vamos por aí...
Por isso comente sempre quiser mas por favor não volte a recorrer a termos deste jaez ou ver-me-ei obrigado, com sincera mágoa, a usar um método de "desprezível salazarista": a censura.
seven em 19 de novembro de 2007

Senhor(a) Seven
Como é possível ter o descaramento de afirmar este blog "acima da política" após ter publicado um post não só político como também retintamente partidário? LOL
Quanto à ameaça de censura só tenho a dizer-lhe que já a esperava.
Passar bem.
rui mascarenhas em 20 de novembro de 2007

Caro Mascarenhas: faz mal em supor que aqui se pratica a censura. Não vejo que razões o levam a tal suposição... Como vê publicámos o seu comentário assim como todos os que aqui vão aparecendo, o que não faríamos se tivéssemos intuitos políticos, como afirma.
Só uma vez se censurou um comentário de um imbecil qualquer que se pôs com radicalismos religiosos, algo que, como os de teor político, não nos interessa de todo. Por isso lhe disse não ser conveniente ir por aí.
Se acha que o post é político está no seu direito. Se vê nisso um ataque ao actual governo também está no seu direito mas também lhe digo que seria exactamente igual para nós se o governo em vez de ser cor de rosa fosse laranja ou azul às riscas. É pois importante que isto fique bem claro: este blog é apolítico.
Obrigado por comentar.
Ah, e sou senhor.
seven em 20 de novembro de 2007

Meu caro Mascarenhas, sem querer alimentar (em demasia) a polémica, sempre lhe digo que o compreendo: quando politicamente se torna difícil refutar o óbvio, há quem seja frequentemente tentado a reduzir os críticos à sua “expressão mais simples” recorrendo por vezes a soezes invectivas, quantas vezes despropositadas, mas que demagogicamente falando constituem verdadeiras pérolas do estilo.
Detectarei aqui algum tique oriundo de um passado militante? Quentes RGA’s de idos tempos?
Uma outra questão: com certeza reparou que tive o cuidado de, ao referir o médico de Trabalho citado no artigo, utilizar relativamente ao sigilo a que está sujeito a frase “aparentemente desrespeitado”, e remetê-la em link para um artigo da Lusa sobre o assunto em questão, verdade?
Parafraseando Hercule Poirot, é sabido que a Natureza é aleatoriamente madrasta no que toca à distribuição das “little gray cells” pelos cada uns. Embora na distribuição a sorte me não tenha bafejado, o facto não me causa grande incómodo: estou convicto que, embora não cientificamente comprovado, a escassez de neurónios estimula o senso crítico e evita o alzheimer com antrolhos da subserviência. Em suma, previne o conhecido e mal fadado síndrome do “His Master’s Voice”. Convicções.
Existe porém mais uma questão subjacente ao seu comentário que me obrigou esta noite, confesso, a implementar medidas de higiene do sono, sem que contudo tenha obtido sucesso: li e reli o artigo e o seu comentário e por mais que tente não consigo responder cabalmente a este detalhe, para o qual lhe solicito, como juiz em causa própria, quiçá um comentário elucidativo.
Extenuado pela tentativa de estabelecer uma analogia entre a minha argumentação e o ideário fascista, a dado momento da minha reflexão surgiu-me uma dúvida persistente: se ao invés de ter utilizado como header do artigo o quadro da Paula Rego, tivesse utilizado uma imagem de Estaline supervisionando a deportação de soviéticos para os gulag, e ao invés de ter referido “Estes senhores, a exemplo de Salazar, vomitam no bom senso dos portugueses”, tivesse utilizado algo como “Estes senhores, a exemplo de Estaline, deportam diariamente os portugueses para o gulag do absurdo, do nonsense, da incompetência, da reeducação pela carência”, será que me apodaria de “desprezível estalinista”?. E se o header veiculasse uma imagem de Malatesta ou Bakunin? Anarco-Bombista, talvez, não?
Ai Natureza, Natureza… Madrasta sim, mas não tanto!
jr
jr em 20 de novembro de 2007

aaaaaaaaaAAAAAAAAAAAATCHIM! (inclui 30000000000 desprezíveis vírus )
;)
Malta,
o silêncio é mais nobre das armas... já não sei onde é que eu li isto.
:S
Dina em 20 de novembro de 2007

Conselho Superior de Magistratura
Cozinheiro com HIV foi despedido por «caducidade do contrato de trabalho».
O Conselho Superior da Magistratura esclareceu que o despedimento do cozinheiro com HIV «não foi objecto de despedimento com justa causa, antes a entidade empregadora considerou a existência de caducidade do contrato de trabalho».
Em comunicado, a propósito do teor de notícias e artigos publicados na comunicação social, o Conselho Superior da Magistratura (CSM) refere que, apesar de as notícias aludirem à existência de dois pareceres médico-científicos que teriam sido ignorados por todos os juízes, «apenas foi junta ao processo, no Tribunal do Trabalho de Lisboa, cópia impressa de páginas de um site do Governo dos Estados Unidos da América destinado a informação genérica à população sobre doenças transmissíveis».
Tal informação - adianta o CSM - «não pode ser confundido com um parecer médico-legal».
O CSM esclarece também que no Tribunal da Relação de Lisboa não foi junto qualquer parecer médico-científico, mas, unicamente, um parecer jurídico, do Centro de Direito Biomédico da Universidade de Coimbra.
«Acresce que este parecer jurídico não poderia ter sido atendido, nem considerado processualmente pelos juízes desembargadores, porque não foi admitido por extemporaneidade, conforme despacho da relatora do despacho e que não foi objecto de recurso por nenhuma das partes, apesar de devidamente notificadas do mesmo» , refere o CSM.
O CSM esclarece igualmente que «o juiz do Tribunal de Trabalho de Lisboa, após a realização do julgamento, com gravação da prova, fixou os factos provados, fundamentando os mesmos nos depoimentos de vários médicos que ali foram ouvidos como testemunhas, bem como na documentação junta aos autos».
«Designadamente, no facto provado número 22 pode ler-se: O vírus HIV pode ser transmitido nos casos de haver derrame de sangue, saliva, suor ou lágrimas sobre alimentos servidos em cru ou consumidos por que tenha na boca uma ferida na mucosa de qualquer espécie» , adianta o CSM.
O CSM sublinha, igualmente, que «no recurso de apelação interposto para o Tribunal da Relação de Lisboa, o cidadão em causa, apesar dos depoimentos das testemunhas terem sido gravados, não recorreu dos factos fixados não pedindo ao tribunal de recurso a sua alteração com base nos depoimentos prestados ou sequer com base no que consta do site norte-americano».
Por último, esclarece que «o Tribunal da Relação de Lisboa proferiu o acórdão tendo por base os factos provados vindos do Tribunal de Trabalho de Lisboa que foram aceites, sem recurso, nesta parte».
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=68007
rui mascarenhas em 22 de novembro de 2007

Ao elucubrador "jr":
1 - O meu mundo não é, ao contrário do seu, feito unicamente de vermelhos e negros, fascistas e social-fascistas, índios e cowboys, espertos e burros, despertos e dorminhocos, etc.
2 - Ironia fina é com o Eça; a sua fruste tentativa de navegar por esse mar não vale um dejecto de gaivota.
Adeus.
rui mascarenhas em 22 de novembro de 2007

Meu caro Mascarenhas
Tss tsss… que maus fígados…
O Eça, a si, nunca perdoaria a falta daquilo que ele sempre teve: requinte e “savoir faire “.
No entanto reconheço que o seu esforço é digno de registo. Quem sabe, na próxima…
Devo recordá-lo ainda que, de ânimo leve, apodar alguém de “salazarista” não é propriamente “ironia fina”: é “ironia” grossa.
Claro, claro que eu compreendo que as “entrelinhas” nem sempre são inteligíveis à primeira.
Mas, caro Mascarenhas, não se deixe assim impunemente conduzir pelos ditames da adrenalina. Cogite, cogite calmamente antes de vociferar.
É elementar meu caro! Num blog dificilmente se aceita, mas, na vida real, arrisca-se claramente a “morrer na praia”.
Até sempre.
PS: Que me diz desta “ironia”? Foi para si suficientemente “capaz”? Foi mais “à Eça”?
Gostou, não gostou? Oh, diga que sim, diga que sim…
Amplexos. Fortes.
jr em 23 de novembro de 2007

Já sigo o obvious há 2 anos. Algo que sempre me agradou neste espaço foi o facto de ser imune aos maus e bons comentadores do dia a dia, sem nunca entrar em peixeiradas. Parafraseando o seven, parece-me que o caminho dos editores do obvious não será por ai...
Abraço e continuem com o bom trabalho.
Matias
Pedro Matias em 24 de novembro de 2007

É a primeira vez que visito este blog e desde já dou os parabéns pelo nível a que se discute. No entanto, parece-me que o cerne da questão não é de todo primariamente político. Ainda assim, discordo absolutamente daqueles que acusaram o autor do post de fascismo, na medida em que este dá a perfeita noção do contrário.
Fascista é a noção de que os portadores de VIH devem ser isolados ou, se possivel, cremados em locais próprios. Perdoem-me a aparente dureza mas, pelo que tenho lido em muitos locais, esta ideia está subjacente em muitos discursos. Sou estudante de medicina e ainda hoje estive num hospital dedicado a doenças infecto-contagiosas. Deixem-me que vos diga que se os médicos tivessem a mesma perspectiva ignorante da maioria nunca tratariam estes doentes, porque eles têm tendências estranhas para chorar, ter relações sexuais, suar, salivar e sangrar... Parecem pessoas...
Quanto a este parecer postado por um colega de blog -
«Designadamente, no facto provado número 22 pode ler-se: O vírus HIV pode ser transmitido nos casos de haver derrame de sangue, saliva, suor ou lágrimas sobre alimentos servidos em cru ou consumidos por que tenha na boca uma ferida na mucosa de qualquer espécie» , adianta o CSM. - só quero fazer uma pergunta:
- PORQUE NÃO SE FAZEM RESTAURANTES SÓ PARA PORTADORES DO VIH? É que eu posso estar a comer com uns talheres mal lavados de um VIH+. Fechem-se os restaurantes! Interditem-se as praias pela possibilidade remota de em N km2 calcarmos uma seringa infectada! leiam as entrelinhas... - "é possivel" - pergunta o jornalista
Resposta de um MEDICO: "é possivel eu ir no carro para casa e cair-me uma estação de telecomunicações em cima do carro, mas tal como neste caso, a probabilidade é desprezivel, certo?"
Só queria que depois disto tudo fosse retida uma ideia:
SIM, é possivel que o cozinheiro passasse o VIH a um cliente mas a probabilidade resume-se à multiplicação da probabilidade de mais de 10 variàveis (só das que me lembro) pouco provaveis. O perigo de as pessoas nao confiarem nos médicos é maior. Nem sequer querem saber se têm ou não a doença e voces lidam com elas normalmente.
Hoje são eles, mas podíamos ser nós. Regozigem-se por vivermos num país onde há pessoas que querem saber do seu estado, lidando com a doença, sendo discriminadas e ainda assim com vontade de nos proteger do seu mal.
Nuno Silva em 3 de outubro de 2008
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