Viagens #24: os caminhos


 Tajana Marrocos Viagens Caminhos

Tenho o vício antigo de caminhar na rua pisando apenas o lancil do passeio. É um jogo de equilíbrio para quem nunca conseguiu andar de skate, nem de patins, e mal se aguenta num par de esquis. Mas nos passeios, ao contrario dos caminhos do Atlas, tudo é a fingir.

A imagem dos caminhos foi uma das que mais se fixou na memória das caminhadas que cá fiz. É uma imagem que tem a mesma intensidade da das grandes montanhas e do desenho sempre novo das sombras das nuvens sobre as encostas. E são coisas de nada, os caminhos de montanha - linhas desajeitadas sobre a terra, quase invisíveis para leigos como eu, pouco convincentes. Os caminhos cá de baixo, no meio do vale, são de outra natureza. Acompanham frequentemente os canais de rega, que se escondem entre a franja exuberante da verdura. Um palmo ou dois de largura sobre a erva gasta no centro; em Maio, quando cheguei, esta erva estava tão alta que quase não se distinguiam os caminhos dos canais e dos tufos verdes e era precisa uma certa dose de fé e de intuição para avançar sem ceder à tentação de tactear o chão.

As arestas dos caminhos são arredondadas, como se moldadas à mão, como as muralhas dos castelos que fazíamos com a areia da praia, mas afagadas e endurecidas pela passagem das pessoas no meio de um rectângulo de terra nua ou no seu contorno verdejante. Há caminhos côncavos e caminhos convexos, estes os meus preferidos: é como caminhar sobre o dorso de uma duna, ou empoleirada no lombo de um animal muito comprido estendido em ziguezague.

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Na foto que vêem acima, a linha um pouco mais escura, central, é um canal de rega - e as dos lados são caminhos, que se separam dois metros à frente. Quando se salta de um para outro, é preciso saber com segurança onde se vai pousar o pé. Neste caso consigo ainda ver o brilho da água, mas nem sempre isso é claro (e de noite, quando os caminhos se tornam estranhamente irreconhecíveis, muito menos).

Também acontece que a linha dos caminhos, já gasta, se torne intermitente. Então é preciso ter ainda mais cuidado, para nos equilibrarmos nos pontos altos, como pontas de cones, para não escorregarmos, para não irmos deslizando pela parede do caminho abaixo e ficarmos com água pelo joelho. (E não, nunca me aconteceu, embora já me tenha espalhado ao comprido num grande salto mal calculado por cima de uma poça de lama.)

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Seguir caminhos mais ou menos ao acaso é um prazer parecido com o de desenhar linhas numa folha branca, marcando esquinas rápidas e regressos desnecessários. Parto aqui de casa e escolho uma direcção. Em frente, esquerda, direita, em frente, em frente. Por vezes é preciso voltar atrás: o rio, ou um maciço de choupos, ou um terreno alagado. Mas há sempre um outro caminho. É um jogo quase infantil, como se pegássemos num marcador verde e decalcássemos um labirinto.

As mulheres cortam a erva regularmente, dando-lhes um aspecto de pequena avenida arranjada. Vão-se gastando; um caminho demasiado fundo ou a desfazer-se, ou desmanchado numa poça de lama que ninguém consegue saltar, ou que se alaga completamente com a chuva ou a abertura de um canal de rega vizinho, e logo surge outro caminho ao lado, mais alto, mais direito, mais seco - sem a deliberação de um projecto alternativo, mas com o simples desvio necessário de todos os pés que a cada dia o percorrem. Um dia acordo de manhã e não posso passar: a chuva engrossou o caudal dos canais e transbordou no carreiro empedrado que dá acesso à estrada.

E agora?

tajana AvatarTajana é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz. E mai-nada.


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