Viagens #26: pequenos horrores universais


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Imagino que nem toda a gente partilhe a minha aversão por cabeleireiros. Não pelos profissionais em si, mas pelo resto: o sítio; as figuras ridículas que fazemos com molas e ganchinhos espetados na cabeça; as conversas; e, sobretudo, a gíria, as perguntas em código feitas com a irritante segurança de quem acha que gaja que é gaja sabe o que é uma mise ou, glória das glórias, um brushing.

Ora eu entrei num cabeleireiro em Marraquexe e, depois de fazer sinal de que queria lavar o cabelo e cortar as pontas, veio a pergunta infalível:

- Brushing?

E a minha igualmente infalível resposta - um não, que em tempos tinha, admito, a sua corzinha de horror deliberado, mas agora é apenas uma resposta curta e crua, que espero seja suficiente para refrear as cabeleireiras (laca? um óleo nas pontas? etc., etc..). Ao que parece, um cabelo ondulado ou sem pontas reviradas é um absurdo. Seja.

A cabeleireira de hoje tinha um ar particularmente enfastiado. É certo que eu a tinha obrigado a interromper uma permanente; quando entrei, estava meio estendida num cadeirão com a cabeça enfiada num daqueles capacetes gigantes, e um ar de sonolência e "vai-se andando" de quem goza a sua felicidadezinha. O capacete talvez lhe provocasse um estado de semi-consciência mental; e só percebi que não era uma cliente quando se levantou, pesada, e se dirigiu a mim, ainda com os rolos no cabelo.

Cortar pontas, lavar. Disse-me o preço e fez-me sinal para que me sentasse.

Dei-me por feliz por ela não poder conversar comigo. Os gestos - a pentear-me, a apertar a tesoura, a pôr as molas ridículas em cada madeixa - eram a crème de la crème do enfado, tinham qualquer coisa do tom desinfeliz e entediado de uma injustiçada pela vida. Ah, sim, agora eu tinha certeza de que tinha interrompido algum momento de concentração meditativa naquele capacete. Uma vida nova começava de cada vez que ela se metia lá de baixo. Devia sentir-me culpada por a ter trazido de volta à mesquinhez do mundo - e nem ao menos para um brushing. Em dois minutos cortou-me as pontas e repetiu o preço. E lavar?, perguntei eu, apontando o lavatório. Fez um ar surpreso e incomodado:

- Shampooing?

Lá está! Gaja que é gaja não lava o cabelo - faz shampooing.

Sim, isso, assenti eu. Suspirou de aborrecimento. Não sei se é normal aqui, mas prefiro pensar que por vingança me lavou a cabeça, e sem grande atenção, com água fria. Eu resisti estoicamente, olhando na parede à minha frente, por cima de um belíssimo espelho com moldura de madeira, assente num móvel todo em madeira escura igualmente bonito (em vez das modernices envidraçadas e com apliques de plástico cor-de-rosa que há em Portugal) a fotografia do rei, entre dois diplomas de formação profissional - um em permanentes, o outro não me recordo.

Secou-me o cabelo com uma toalha, sem pentear. Está bem assim?

Esta óptimo.


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