Viagens #30: a arte de partir



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Quando é que um autocarro marroquino partiu? Pergunta difícil. Teoricamente, há sinais que mostram que um veículo já partiu: o motor está ligado; os passageiros, maioritariamente pelo menos, estão sentados; por fim, e acima de tudo, o veículo desloca-se. Ah, mas se fosse assim, era fácil! Nada disso.

Ou melhor, as coisas não são assim tão simples. Partir, num autocarro marroquino, é um processo demorado que só percebemos que já aconteceu quando viajamos a uma velocidade elevada. Mas como funciona então isto?

A partida de um autocarro começa pelo menos meia hora antes do momento em que ele deixa a gare. A essa hora, se nos aproximarmos e comprarmos um bilhete, o vendedor vai dizer-nos: "Entre, entre já!". E a que horas saímos?, perguntamos nós. "Agora", é a resposta. Entramos e sentamo-nos. E durante a próxima meia hora o autocarro - por vezes já com o motor ligado - vai acolhendo mais passageiros, que, como nós, vão todos partir agora. Pensamos em sair para ir comprar uma garrafa de água ou alguma coisa para comer. Mas se o autocarro partir agora? Deixamo-nos ficar.

Finalmente, há um motorista que se senta no seu posto, diz "Ielá, bismiallah!", que é sinal de partida, e pensamos: é agora! E - reparem, o autocarro está em movimento. É um movimento lentíssimo, como se em vez de andar estivesse a escorregar devagarinho no sofá, uma coisa que pode tornar um percurso de 10 metros numa viagem de cinco minutos; mas não há dúvida, já estamos em movimento. De é agora, passámos a foi agora.

Quer dizer que já partimos? Não.

Enquanto o autocarro continua a avançar muito lentamente (mas creio que avança, sim), e apita como se tivesse a missão salvadora de nos levar para longe do fim do mundo, continuam a entrar passageiros. E não só. Numa paragem em Agadir (o processo de estar-a-partir repete-se em muitas paragens), que era só para saída e entrada de passageiros, quando o autocarro se pôs em marcha no esforço lento de franquear os 30 metros que o separavam do portão de saída da gare, houve ainda oportunidade para entrarem vendedores de pipocas, amendoins, relógios e anéis, bolos, água, revistas, lenços de papel, CDs (com demonstração do produto num leitor portátil e acompanhamento vocal do vendedor), e chocolates. Um vendedor por cada produto. E pelo meio, os pedintes: um homem sem uma perna que falava sem pausas, uma mulher com um bebé às costas que distribuiu papéis pelos passageiros e os recolheu na volta. Isto sempre com o autocarro - adivinharam! - já em movimento.

Mas o mais extraordinário, e que até hoje não percebi, foi um rapaz de uns 20 anos em que reparei quando ele conversava tranquilamente com um passageiro. Fechou uma ou duas janelas, e pensei que era um dos tripulantes do autocarro. Mas o rapaz, de repente, foi até ao início do autocarro e percorreu-o até lá atrás a beijar a cabeça de cada um dos passageiros (com apenas uma ou duas recusas). Não sei se era o número artístico dele para pedir dinheiro (que ninguém lhe deu), ou se era apenas carinho pela humanidade em geral e pelos passageiros de autocarro em particular.

Bom, mas posto isto já todos os vendedores saíram, todos os passageiros estão nos seus lugares, o sol brilha, o portão abriu-se e o autocarro entrou na estrada. Partimos? Não completamente. Porque na rua, 30 metros ao lado do portão, há mais dois passageiros que esperam o autocarro, mas que preferiram ficar ali mesmo, em vez de darem alguns passos até à gare. E o mesmo vai suceder ao longo dos próximos 300 a 400 metros - mais passageiros a fazerem sinal de stop, e o autocarro a parar. Até que, de repente, reparamos que as árvores à beira da estrada já passam por nós (ou nós por elas) como uma faixa verde, e isso quer dizer que estamos a andar depressa, e isso durante muito tempo. O que só pode querer dizer uma coisa: partimos. Não nos enganaram, afinal.

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Com os táxis de longa distância pode acontecer uma coisa muito semelhante, embora geralmente menos demorada. Pagamos e dizem-nos que entremos. Ficamos à espera. Fartamo-nos de esperar, saímos. O motorista foi não sabemos onde. Regressa, voltamos a entrar. Ele entra também, avança 20 metros e pára à beira da estrada sem dizer nada. Sai, desaparece. Volta a regressar - ou então vem outro motorista, senta-se, diz "bismiallah", arranca, põe uma cassete estridente. Muito bem, temos a estrada aberta à nossa frente, temos música. Mas na primeira rua estreita à direita, ele vira e pára o carro. Sai, corre até uma casa, toca a campainha. Vem um homem que lhe dá um papel, ou um saco de compras. Ele volta ao carro, faz inversão de marcha. E partimos.

Mas talvez não. Pode ainda precisar de parar na estação de serviço para meter combustível (o motor sempre ligado) ou na polícia para ir buscar a autorização. Pode parar para trocar algumas palavras com um conhecido ou familiar. E só depois - sim, é mesmo verdade que partimos. Valeu-nos a nossa fé.

Ana Gomes

é colaboracionista e parasita ocasional do obvious. Acredita que há uma única forma correcta de comer bolos de arroz.
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